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ESPÍRITO SANTO: CHUVAS E (IR)RESPONSABILIDADES

27 de dezembro de 2013

José Caldas da Costa (*)

Ronald Mansur, veterano jornalista, chama a atenção nas redes sociais: a tragédia vai ser maior do que a de 1979. E o raciocínio dele tem uma lógica: a tragédia natural é a mesma, a diferença foi o que aconteceu na geografia dos lugares nesses últimos 30 e poucos anos. Tem muito mais gente habitando as áreas de risco, no Espírito Santo e no Brasil.

A Presidente decidiu vir ao Estado pela primeira vez. O Espírito Santo era a única unidade da Federação onde ela não havia pisado. Se procederem as especulações de que isso se deve ao fato de ela ter perdido a eleição aqui, é uma indignidade não própria a um Chefe de Estado. Não discriminar um eleitorado que pensou diferente na hora de escolher seu governante seria um gesto de dignidade humana e espírito democrático.

Se foram necessárias as torrenciais chuvas, e suas consequências, para que a Presidente soubesse onde fica o Espírito Santo, seja bem-vinda mesmo assim. E ajude-nos a provocar uma reflexão nacional sobre a ocupação do solo. Alguém já viu casas indígenas serem inundadas por enchentes? Dirão que eles são poucos, distribuídos pela área, mas a explicação não pode ser simplificada desse jeito. É mais conveniente analisar o que eles têm a nos ensinar: a primeira lição é respeitar e dialogar com a natureza.

O colonizador, de todos os tempos, chegou e ignorou a sabedoria da população nativa. Bastava observar a toponímia original para evitar muitos dos problemas que hoje seus descendentes enfrentam, para não dizer da falta de responsabilidade dos gestores públicos no processo de ocupação das áreas urbanas.

Como explicar que se construa um aeroporto num lugar que os nativos denominaram Cumbica (lugar de nuvem baixa)? Ou se instalar uma usina nuclear, como a de Angra dos Reis, numa localidade denominada Itaorna (pedra podre)? Claro que a prepotência do colonizador, que passa de geração a geração, impede aceitar que algo de bom venha desses gentios selvagens. Então, dêem-se nomes de santos, homenageie-se a realeza e, depois, as elites, e destine-se às gerações futuras a herança dessa verdadeira ignorância.

Políticos oportunistas e populistas permitem e até incentivam a ocupação de lugares impróprios. Talvez tomados pelo espírito profano do personagem “Justo Veríssimo”, criado pelo genial Chico Anysio, aquele do “odeio pobre”. Mas as consequências não escolhem classe social nem condição econômica. O sol e a chuva vêm sobre bons e maus, ricos e pobres, seres humanos transformados em massa de consumo.

Num mundo tomado pela ganância e a inconsequência, somente nos resta manifestar nossa impotência diante dos fenômenos naturais e, enquanto reunimos nossos cacos, derramar nossas lágrimas pelos que sofrem mais gravemente pelos desatinos da humanidade desvairada. E que não se atribua a um Deus, nem à sua vontade, as dores que nós mesmos buscamos enquanto espécie inteligente, mas adoecida na alma.

Como disse John Donne, “nenhum homem é uma ilha, completamente isolada; todo homem é uma parte do continente, uma parte do todo… a morte de qualquer homem me faz enfraquecer, pois estou envolvido com a humanidade; desta forma, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
Que este Natal, a exemplo do primeiro, seja portador de boas novas nesses dias complicados.
***
Depois de alguns meses de um “recesso” sabático meio involuntário, estou de volta às páginas do Século Diário.

José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia.

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