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Colatina, um lugar que respira tristeza

29 de dezembro de 2013

Um dia perguntaram a Rubem Braga se era verdade que a cidade onde ele nasceu, Cachoeiro de Itapemirim, era mesmo feia. Rubem, diplomata de carreira, respondeu com um efeito poético: nenhuma cidade cortada por um rio pode ser feia. Assim é Colatina, no Norte do Estado.
Não bastasse a beleza de sua gente, uma mistura abençoada de negros e índios com sul-europeus, principalmente italianos, a cidade tem uma beleza própria, com suas elevações simulando as curvas do corpo feminino, que tanto agrada aos olhos, e o rio Doce correndo suavemente das Minas Gerais para o oceano.
Costumo sempre dizer que Colatina é um lugar de gente amiga, que respira uma tranquilidade incomum para uma cidade de seu tamanho. Das grandes cidades capixabas, é a que detém os menores índices de violência, principalmente crimes contra a vida. Sua economia é estável, sem grandes sobressaltos. Seu comércio diversificado, servindo de referência regional.
Há alguns desafios de soluções atrasadas, como a circulação de veículos e pessoas por uma única ponte ligando as duas margens do rio, na região mais adensada. Ponte que está por completar 100 anos e passa por sua primeira reforma estrutural, impedindo a passagem normal de veículos.
Chego de Colatina, onde fui passar o fim de semana com amigos que fiz muitos na cidade. E volto com um sentimento estranho: a cidade respira tristeza, devido à maior inundação provocada pelo rio Doce na história. Como nem tudo são tragédias, em 1979, data de outra grande enchente, a cidade ficou inundada vários dias. Desta vez, foi inundada num dia e no outro o rio já estava de volta ao seu leito.
Mas ficou um rastro de destruição assustador. Se o governo não abrir um crédito especial, a juros subsidiados, e prazo longo, vai demorar para a cidade se recuperar e, em alguns casos, há comerciantes que não conseguirão sobreviver à tragédia impressionante!
Fui oferecer ombro e levar uma palavra amiga a pessoas queridas, e as encontrei com o olhar fundo e perdido, como tentando entender o que havia acontecido. O cheio de barro podre é incômodo, os helicópteros cortam os ares a partir da base montada no estádio municipal, para socorrer pessoas ainda isoladas. Não há um única estrada vicinal que tenha escapado da fúria das águas.
Se em 1979 a enchente durou mais, entretanto, não houve mortes. Desta vez, as mortes passaram de dez. Os morros derreteram como calda de chocolate.
Uma lágrima quente desce em minha face. É por ti, Colatina!

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