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PURITANISMO, HIPOCRISIA E PROJEÇÃO

12 de janeiro de 2016

Aloísio Silva (*)

Jesus Cristo criticava em sua época os hipócritas, “túmulos caiados por fora, mas cheios de podridão por dentro”. Por que túmulos? É como se os hipócritas estivessem mortos, por não perceberem a própria realidade psicológica.

Avaliando passagens bíblicas, notemos que Jesus não condenou a mulher adúltera nem o ladrão Dimas – ambos praticaram crimes considerados hediondos para a época. Talvez porque esses personagens demonstravam estar acordados para seus conflitos psicológicos e, por isso mesmo, dispostos a vencê-los um a um. Porém, antes precisavam identificá-los em Si.

O hipócrita apresenta uma imagem exterior que não condiz com a imagem íntima, ele fixa na imagem externa e, por isso, fica impossibilitado de ter uma proposta sincera de mudança interna. É como se olhasse no espelho e visse um “Ser” que ele não é. Nos dias de hoje chamamos esse comportamento de puritanismo, em referência aos puritanos da Revolução Inglesa.

Hipócritas ou puritanos, nos tornamos vigilantes da vida alheia. Apresentamos uma falsa imagem de perfeição e de grandeza moral, que não nos pertence. Achamos que estamos acima de qualquer suspeita. Não só julgamos, mas também condenamos a conduta e o comportamento alheio. É como se tivéssemos o poder de polícia, podendo dizer o que as pessoas devem ou não devem fazer. Como devem se comportar, que condutas podem adotar.

Ferimos as pessoas próximas, machucamos nossos familiares. Essas pessoas se afastam de nós, pois nos tornamos indivíduos chatos, inconvenientes, tentando proibir o outro de tomar essa ou aquela atitude, que diz respeito à vida dele.

Comportamento sexual é o que predomina na condenação puritana. Por que isso ocorre? Na visão de Freud, o eminente pai da psicanálise, ocorre um fenômeno de fuga, de distorção da realidade, chamado de “Projeção”.

O nosso inconsciente percebe defeitos, desvios ou traumas, que desaprovamos em nós mesmos, e, não tendo a força moral necessária para nos reformar intimamente, fugimos da realidade íntima projetando nos outros as nossas mazelas.

Como perceber se estamos projetando, “hipocrisiando” ou “puritanisiando”?

Será necessário observarmos quais condutas alheias nos incomodam. Que comportamentos das outras pessoas nos deixam indignados? Busquemos o exemplo dos homofóbicos, ou seja, pessoas que dedicam suas vidas a perseguirem os homoafetivos.

Por que uma pessoa heterossexual se incomodaria com a vida do homossexual? Porque trás, dentro de si, uma tendência à homossexualidade, que a consciência corrompida pela religião tradicional condena. Não conseguindo combater, em si, a homossexualidade, distorce a realidade e passa a combater no outro o que reprova em si mesmo. Não raras vezes, quer matar o homossexual externo, porque não consegue aniquilar o homoafetivo que existe dentro dele. É o que, vulgarmente, se diz “dentro do armário”.

Imaginemos se alguém elege como projeto de vida combater a pedofilia. Por que a escolha? Por que foi abusados sexualmente na infância? Ou por que é um pedófilo? Será preciso meditar.

Observemos as pessoas que usam como prioridade nas redes sociais o combate à corrupção. Como é a vida cotidiana dessa pessoa? Ela é alguém, verdadeiramente, honesta? É alguém que não sonega impostos? Essa pessoa não cobra nem paga comissão a ninguém do serviço público? Ela nunca furou uma fila e nem dá um “jeitinho” para resolver as coisas? É mais fácil combater a corrupção nos outros do que em nós mesmos. Porém, qual atitude é mais eficaz – combater a corrupção em si mesmo ou nos outros?

Quando lecionava uma aula sobre projeção, no Curso de Formação em Psicanálise Clínica, duas alunas resolveram fazer uma experiência prática. Uma delas disse à outra: “Eu tenho muita raiva de pessoas invejosas; será uma projeção? Nós somos amigas há muitos anos, você me acha invejosa?”

Assustada, recebeu da amiga a resposta afirmativa. Indignada, ela discordou. Ao que a amiga redarguiu: “É só observarmos os nossos maridos. O meu marido, por exemplo, odeia o gerente do setor que trabalha, porém, ao esbravejar descrevendo o próprio chefe, eu percebo que ele descreve a si mesmo”.

A mesma situação ocorre com os racistas. Normalmente, as pessoas que combatem com veemência o racismo são racistas. Normalmente, aquelas pessoas, que discriminam os negros, têm na sua árvore genealógica a presença da afrodescendência.

Conta-se que, certa feita, caminhava um mestre com os seus discípulos, quando um deles retarda a caminhada. Interrogado do motivo de paralisação da marcha, ele responde: “Adiante tem um cachorro morto, em estado de decomposição”. Percebendo o discípulo com as mãos tapando o próprio nariz, o mestre segue o caminho normalmente e, ao olhar o animal morto, diz: “Que belos dentes tinha este cão”. O mestre viu a beleza que carregava em si e os discípulos viram a podridão que traziam no coração. São os túmulos caiados por fora, porém, cheios de podridão no íntimo.

Os homens e mulheres mais notáveis da humanidade não se incomodavam com os outros, miravam em si mesmos o que precisavam modificar. Chico Xavier afirmava: “Aos outros, o direito de se comportar como querem; a mim, o dever de ser cada dia melhor”.

Também projetamos Luz. Normalmente, as virtudes que admiramos nos outros e, por isso, resolvemos adotar, é porque nós temos essa virtude nós. Vamos conhecer a nós mesmos?

(*) Aloisio Silva é psicanalista. https://www.facebook.com/aloisio.silva?fref=nf

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