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Brasil, quem somos nós, afinal?

5 de julho de 2016

 

Povo brasileiro

José Caldas da Costa(*)

Tento explicar a um amigo antropólogo estrangeiro quem somos nós. Ele não consegue entender as coisas do Brasil, por mais que estude e tenha morado aqui por mais de vinte anos.

Carrega utopias. Espanta-se com a votação do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados,  que Eduardo Cunha parecia ter absoluto controle. Também não compreende como alguém, junto há tanto tempo, arquitete um plano para derrubar a “companheira presidenta”.

Igualmente, parece não acreditar que os companheiros de cá tenham colocado a perder aquilo que ele considera ter sido o maior programa social de governo dalém mar, embora saiba, como poucos, o quanto os companheiros de lá se locupletam e tiram proveito dos mesmos esquemas que alimentam a corrupção por cá, desde Cabral.

Explico-lhe, para seu maior espanto, que nossa genética sociológica não beneficia suas utopias. Afinal, quem somos nós? Uma mistura de europeus, com africanos e nativos indígenas. Simples assim? Sei não. Quem somos nós, afinal?

Aventureiros portugueses, fugindo da expansão moura, em campanhas marítimas financiadas pelos reis europeus à moda das campanhas políticas financiadas pelos barões das obras públicas cinco séculos depois.

Aventureiros que encontram nativos “ingênuos”, a se encantar com espelhinhos e entregar o ouro. Bons selvagens! Ingenuidade que continua existindo na imaginação de defensores de nativos modernos, que não hesitam em trocar madeiras nobres da amazônica selva por espelhinhos retrovisores de possantes máquinas terrestres. E continuam entregando suas filhas ao homem branco que vem de fora.

Mais portugueses, agora de má fama, para colonizar a terra e dela retirar, por mais de duzentos anos, tudo o que podem, estabelecendo faixas de domínio e proteção de asseclas, embarrigando as índias e as mucamas africanas, para cá trazidas cativas ou aqui nascidas em lares escravos.

Aliás, este é o terceiro elemento de nossa genética antropológica: africanos, retirados à força de suas nações, muitos deles reis tomados prisioneiros de guerras tribais e vendidos como mercadoria, ou simplesmente capturados por mercenários mercadores de gente.

Depois, mais europeus. Espanhóis anarquistas, que a ninguém desejam submeter-se, italianos esfomeados, fugindo de guerras e perseguições, alemães, espertos negociantes sírio-libaneses. Judeus tornados cristãos novos. Japoneses em busca de frentes agrícolas. Essa gente para substituir a mão de obra escrava, recém-tornada livre, mas livre para que?

Quem somos nós? Somos aqueles que culpam os políticos por todos os males da nação, sem nos apercebermos de que a nação somos nós e que os políticos não foram lá colocados por herança divina. Somos aqueles que criticamos as propinas, mas não hesitamos em dar vantagens por um atendimento preferencial. Aqueles que tomamos emprestadas crianças para ter prioridade na fila.

Avançamos a cerca no quintal do vizinho, defendemos o filho contra o professor sem procurar saber se ele tem razão, furamos o sinal vermelho, paramos sobre a faixa de pedestres, estacionamos na vaga de idosos, levamos nossos velhos ao banco para sermos atendidos mais rápido, não devolvemos o troco recebido a maior, instalamos gatonet, sonegamos direitos trabalhistas de nossas domésticas, usamos a carteirinha de estudante do amigo para pagar meia entrada em shows e jogos de futebol, atraímos por nossa personalidade alegre e afastamos por nosso caráter duvidoso.

Sim, amigo antropólogo, estes somos nós. Entendeu ou quer que eu desenhe?

José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia

(Artigo publicado na coluna Opinião de A Tribuna – ES, no dia 02 de junho de 2016)

 

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