O ANO QUE SE INICIA

Janeiro 4, 2010 por jose caldas

Acrescentei à minha experiência de vida, nos últimos sete anos, a experiência de pelo menos 30 vultos da humanidade, que passaram a ser os meus mentores, através daquilo que deixaram escrito. Um deles, Jim Rohn, se foi no início de dezembro, mas deixou-nos um legado extraordinário em filosofia de vida.

Lembro-me de meus tempos de adolescente em Alegre, quando procurava me relacionar com pessoas mais velhas e mais experientes a fim de compensar, talvez, a falta que me fazia um pai conselheiro. Mais de 30 anos depois, encontro em Jim Rohn algo que reforça aquela minha atitude do passado: “Amizade na proporção do crescimento pessoal correto a partir daquela amizade”.

São os efeitos do meio ambiente sobre as circunstâncias da vida. O que quero é saber como podemos viver melhor. Também não gosto de retrospectivas. O que passou, passou. Deve servir apenas como exemplo, a ser repetido ou não. Esquecer os erros é incorrer no risco de repeti-los, mas ficar ruminando-os é o mesmo que dirigir um carro em alta velocidade olhando pelo retrovisor.

Quero recorrer às lições de James (Jim) Rohn para uma reflexão sobre o ano que se inicia. E desejar, sinceramente, que todos saibam viver intensamente as estações da vida, tirando o que de melhor elas têm para oferecer e que, quando os resultados não forem os desejados, que exista força e fé para recomeçar.

O nosso verão climático apresenta-se como se fosse uma Primavera da vida. Gosto de observar as pessoas e o que percebo é que, no período entre o Natal e o Ano Novo, vivemos um outro mundo, como que idealizado. O inverno da vida sempre parece longo demais, seja porque, de fato, as coisas não andaram bem, seja porque boa parte das pessoas tende a valorizar demais as experiências ditas negativas, sem vislumbrar as lições que elas comportam.

Napoleon Hill, grande pensador da primeira metade do século passado e que influenciou, enormemente, o mundo ocidental, dizia que toda adversidade traz em si a semente de uma vantagem equivalente. O problema é que as pessoas fixam na adversidade e se esquecem de crer na semente.

Dentre os muitos ensinamentos da Bíblia, dois me acompanham muito frequentemente: primeiro, a árvore que cair para o norte, ali ficará – ora, não somos árvores; segundo, lança a semente de manhã e não retires tua mão de tarde, porque não sabes qual delas irá prosperar. É necessário semear valores sempre para que toda a humanidade possa colhê-los.

Nas próximas semanas, vou falar dos ensinamentos de Jim Rohn para cada estação da vida e espero, com isso, contribuir para que cada leitor faça suas escolhas consciente, valorizando cada experiência da vida. Tenham um ótimo ano que se inicia.

 José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

PARA QUE SERVE O PROMOTOR DE JUSTIÇA?

Dezembro 28, 2009 por jose caldas

Até 1980, o Ministério Público tinha suas atribuições mais centradas no âmbito criminal. Daí os Promotores de Justiça terem sido considerados órgãos eminentemente acusadores. Além da existência da Ação Popular (Lei nº 4.717|65, que, no seu art. 6º, $ 4º e art. 7º, I, a”, já previa a participação do órgão do Ministério Público, foi publicada, em 24.07.1985,  a Lei nº 7.347, que, no seu art. 5º, legitimou os membros do  Ministério Público  para a propositura de ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados ao meio ambiente, ao consumidor, aos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.

Em 05.10.1988, foi promulgada uma nova Constituição Federal, que, nos seus arts. 127 a 130-A, conferiu ao MP uma fisionomia inteiramente nova, ou seja, criou um novo Ministério Público.

Em 13.07.1990, entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em vários dos seus artigos, prevê atuação do MP na defesa dos interesses e direitos das crianças e dos adolescentes.

Em 11.09.1990, passou a vigorar a Lei nº 8.078, que instituiu o Código de Defesa do Consumidor, que, de igual modo, no seu art. 82, I, de modo que, concorrente, legitimou o MP para a defesa do consumidor, sempre que espancados interesses ou direitos difusos ou coletivos ou individuais homogêneos.

Em 02.06.1992, foi editada a chamada Lei da Improbidade (8.429\92), que, no seu art. 22, assegura legitimidade ao órgão do Ministério Público para agir sempre que divisar a presença de ilícitos intitulados improbidades administrativas, elencados nos incisos dos arts.  9º a 11 da citada Lei.

Em 1º.10.2003, passou a vigorar o Estatuto dos Idosos, que consiste na Lei nº 10.741, cujos arts. 43 e 45 conferem ao órgão do MP legitimidade para a proteção dos direitos dos idosos, sempre que violados ou ameaçados.

Sobretudo depois de 05.10.88, quando entrou em vigor a citada Constituição cidadã, passaram a viger muitas outras leis que outorgaram ao Ministério Público legitimidade para atuar na defesa de interesses e direitos da Sociedade, razão por que o Promotor de Justiça, de órgão meramente acusador, passou a ser  considerado autêntico advogado do povo.

Releve-se que, para poder agir, o Promotor de Justiça natural, além da legitimidade, deve dispor de dois outros elementos essenciais, quais sejam, a certeza da prática ilícita do fato e evidentes indícios da sua autoria, pois, se atuar com dolo ou culpa, poderá vir a ser responsabilizado, conforme previsão constante do art. 37, $  6º, da Constituição Federal, e do art. 85 do Código de Processo Civil pátrio.

Para isso, urge registrar-se que as manifestações ministeriais são, sempre, objeto de exame do legítimo representante do Poder Judiciário, que funciona como uma espécie de fiscal, fiscalização esta que é recíproca, sem prejuízo da fiscalização das partes processuais interessadas.    

 Salvador Bonomo –  ex-Deputado Estadual  e ex-Promotor de Justiça do ES. Av. Rio Branco, 1.626 – apto. 202. Praia do Canto. Vitória. ES. CEP n. 29.055.642. Fone: 99894977.

UMA TRÉGUA DE NATAL, ORA SE FAZ

Dezembro 26, 2009 por jose caldas

Zakeu Zengo

É bastante conhecida a história que decidi lançar mão hoje para produzir mais uma reflexão que a oportunidade do Natal tem me permitido aproveitar estes últimos dias. Pena simplesmente que o texto será um pouco longo, desta vez, para o tempo que a maioria de nós, vítimas do frenesi moderno, tem para dedicar à leitura da reflexão alheia. Aqui vou eu, contando com a sua trégua.

O Natal de 1917 ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial. Na França, exércitos de milhões de soldados enfrentavam-se uns aos outros em desesperados e violentos ataques. Os alemães e os aliados viviam em frias e lamacentas trincheiras no solo, em linhas paralelas, com centenas de metros de arame farpado, e uma faixa de “terra de ninguém” entre eles. Cada lado golpeava o outro com milhões de quilos de bombas e gases venenosos. Dezenas de milhares eram feridos e mortos todos os dias.

Ao descerem as sombras da noite de Natal, os homens pensaram com saudade no Natal em seu lar. E essa saudade os fez odiar ainda mais a horrível guerra que se travava. Ela parecia muito pecaminosa, comparada ao Natal. Repentinamente, às 10h e 30 minutos daquela noite, a artilharia alemã suspendeu o fogo. De súbito, os soldados aliados se perguntaram o que estariam os alemães a preparar. Estariam se preparando para usar gases venenosos de novo, ou esse intervalo levaria ao ataque maciço? Não muito tempo depois, os canhões dos aliados, na retaguarda, também ficaram em silêncio. Os soldados, nas trincheiras, aguardaram ansiosos e estupefactos em meio à estranha calmaria que toou conta da noite na frente de uma batalha altamente sangrenta e violenta. Os soldados passaram a sussurrar entre entre eles, aproveitando o silêncio dos canhões.

Então chegaram as incríveis notícias: o alto comando alemão havia solicitado uma trégua para o Natal. Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, os clarins soaram o toque de cessar fogo. A trégua era oficial. De ambos os lados fogueiras iluminaram a escura noite.

Os aliados viram então os soldados alemães saírem de suas trincheiras totalmente desarmados. Pararam junto aos montões de barro e começaram a tirarar os seus capacetes. Neste momento alguém começou a cantarolar “Tudo é paz, tudo é amor…”. Pasmados, os soldados aliados saíram também de suas trincheiras e uniram suas vozes cantando o maravilhoso e histórico hino de Natal. Antes de terminarem, engenheiros de todos os lados já abriam ao ímpeto caminho entre os arames farpados que separados os dois lados. Momentos depois, soldados que haviam sido inimigos atravessaram a linha divisória entre as fendas abertas nos arames e uniram-se fisicamente. De mãos dadas e estendidas canatavam e cumprimentaram-se como se fossem amigos que há muito tempo não se viam. Intérpretes ajudavam quando possível o diálogo, mas as diferenças linguísticas não pareciam ter importância. Alegremente mostraram fotografias e retratos de familia que traziam nos bolsos. No calor humano, à volta da magia do Natal, experimentaram os capacetes e capas uns dos outros, e juntos riam da pr’pria aparência maltrapilha e cansada. A alguém terá sugerido que trocassem presentes. Muitos correram às trincheiras para apanhar o que fosse que encontrassem seu para presentear os “amigos”. Soldados aliados trouxeram latas de doces e carne, enquanto os alemães distribuiram longas salsichas. Para completar a celebração, os capelães dos dois lados improvisaram um serviço religioso. Assim, soldados alemães e aliados celebraram juntos não apenas a ceia do Natal, mas também a Ceia do Senhor.

No fim, teriam dado as mão uns dos outros mais uma vez para cantar um refrão religioso familiar aos ocidentais cristãos: “Benditos laços são, os laços fraternos do amor”. Diz-se que naquela noite ninguém quis dormir. A feliz comunhão continuou até o romper do dia e durante quase toda a manhã. Bem sob o nvernal clima que hoje as televisões do mundo inteiro estão a informar,  um pouco antes do meio-dia começaria a cair neve, e os soldados dos dois lados tiveram que correr para abrigar-se em suas trincheiras.

Poucos momentos depois, a artilharia se mobilizou novamente para a ação e o terrível morticínio voltava a ter início. Infelizmente, naquela dia a trégua da Paz não durou muito. Apenas dozes horas de Paz em quatro anos de derramamento de sangue, e a guerra começaria outra vez. Entretanto, o episódio natalino forneceu um vislumbre inconfundível do paraíso que poderia ser este mundo se os homens seguissem a doutrina do Príncipe da Paz, o Cristo do Natal.

Em meio às intermináveis guerras em que nos envolvemos contra nós mesmos e os outros, oxalá não nos falte a graça da razão que chama à trégua todo o instante, para fazer triunfar o legado do Príncipe da Paz. 

Zakeu A. Zengo é teólogo, antropólogo, filósofo, reitor da Universidade Metropolitana de Angola

UM PRESENTE DE NATAL

Dezembro 26, 2009 por jose caldas

Sei que Deus ouve o coração sincero.

Então, neste Natal de Jesus estou pedindo um presente especial, não para mim, mas para Você e sua Família. Meu pedido é que você viva, intensamente, as experiências das Estações da Vida.

 Que o Inverno encontre você planejando a Primavera e não se lamentando pelas omissões do Outono; que sejam constantes os atributos valiosos da Honestidade, Lealdade, Amor e Confiança em Deus e no próximo; que vocês tenham um coração agradecido pelas realizações, e por terem suportado a falta de realizações.

 Que na Primavera vocês escolham a ação e não o descanso; que montem guarda à porta de vossas mentes contra os plantadores de ervas daninhas; que vocês exercitem a disciplina de plantar, apesar das pedras, das ervas daninhas e outros obstáculos; que a semente seja boa e o solo fértil.

 Que no Verão as coisas boas que vocês plantarem na Primavera  encontrem crescimento sólido e constante; que vocês estejam preparados para os insetos e pássaros  intrometidos e as ervas nocivas, que insistirão em impedir o crescimento das sementes de valor; que você esteja pronto para proteger e preservar o que plantou.

 Que no Outono você encontre as recompensas do plantio da Primavera e do cuidado do Verão; se essa alegria não chegar, que vocês encontrem forças para recomeçar, lembrando que sempre colhemos apenas o que plantamos. Lembrem-se: o semeador escolhe a semente e o solo, mas tem que ser diligente para obter uma boa colheita.

 Enfim, neste Natal alegre do Menino-Deus, que as luzes natalinas brilhem em seu coração com tal intensidade, que provoquem profundas transformações e deixem marcas de felicidade, realização e sucesso por todo o Ano Novo, que vem por aí.

 Que Deus vos conceda sabedoria, sempre.

 Estamos juntos.

SOBRE EDUCAÇÃO E PRESÍDIOS

Dezembro 26, 2009 por jose caldas

Salvador Bonomo

 Ao longo dos séculos, certas personalidades e algumas instituições têm conferido importância extraordinária à Educação, com o que acho que devemos concordar plenamente, pois, modéstia à parte, tenho-me na conta de um exemplo exitoso, em  razão da oportunidade que tive de estudar.

Relativamente à significativa importância da Educação, atribui-se a Marco Túlio Cícero (106-43 A.C.), orador, escritor e político romano, a assertiva de que “quem não lê, mal  fala, mal ouve e mal vê”, o que significa dizer que, quem não lê, é meio mudo, meio surdo e meio cego.

Ouso afirmar que, em sã consciência, todos que vierem a ler este modesto artigo haverá de concordar com tal afirmação ciceroniana, que, em virtude da verdade que encarta, atravessou muitos séculos, ensinando a muita gente que o caminho mais curto e mais correto, para que os seres humanos sobrevivam mais dignamente em sociedade, é o do estudo, da Educação.

Confirmando esse indiscutível entendimento, Eça de Queirós (1845-1900), grande escritor da escola realista portuguesa, asseverou, muitos séculos depois, que “abrir escolas é fechar cadeias”, o que é, também, uma afirmação incontestável, pois, a meu ver, a Educação é a Luz que, expulsando a Escuridão, afugentando a Ignorância, gera a Concórdia, gera Compreensão, gera Entendimento, gera a Paz no seio das Comunidades. Atribui-se, também, ao nosso Monteiro Lobato (1882-1948).

Da leitura de um livro didático, cujo título não me recordo agora, guardei a seguinte expressão: “Educação é Vida”. Mas, a meu ver, Educação é mais do que mera Vida, porque é a Educação que possibilita maior progresso em todos os sentidos, em especial no concernente a melhor qualidade de vida e, por com seguinte, a maior longevidade.

Acrescente-se ao que se disse até aqui que, ligando-se a TV Globo, com frequência aparece, na propaganda da Fundação Roberto Marinho, a máxima de que “Educação é Tudo”. E, realmente, é, inclusive no que se refere ao combate à Violência que, sob as mais diversas formas (com a corrupção, o tráfico de drogas, os homicídios, os roubos etc.), assolam, lamentavelmente, o nosso belo País.

Desse modo, ouso afirmar (1º) que, apesar dos permanentes ensinamentos ministrados ao longo dos séculos, os nossos Administradores, sobretudo os nossos Administradores Públicos, não aprenderam a elementar lição de que o seu primeiro dever seria o de “abrir escolas”, em quantidade (universalização do ensino) e em qualidade (bom conteúdo do ensino), além de boa remuneração dos nossos abnegados mestres, e (2º) que, como, ao longo dos séculos, os nossos Administradores não tiveram a preocupação necessária de “criar escolas”, observando-se a sua universalização e a sua qualidade, são, hoje, obrigados a construir, em grande quantidade, Presídios, o que é profundamente lamentável e chocante.

Por derradeiro, urge dizer-se que, sobretudo em razão da má qualidade do ensino que, em regra, é ministrado nas nossas Escolas, começa a grassar, por toda parte, uma insegurança generalizada, isto porque há muitos médicos (que tem a tarefa de cuidar de vidas humanas), que não são médicos, há muitos advogados (cuja atividade consiste em cuidam da liberdade e do patrimônio das pessoas), que não são advogados, há muitos dentistas (que têm como mister cuidar da saúde bucal dos seus semelhantes), que não são dentistas, há muitos engenheiros (que tem como profissão elaborar projetos de edifícios, pontes,  estradas etc.), que não são engenheiros etc. etc., o que tem sido demonstrado pelos resultados das pesquisas divulgadas e pelos fatos ocorridos diuturnamente na vida brasileira, em especial no decorrer dos últimos anos.

Assim sendo, é preciso que haja uma reação imediata a esta perigosa situação, sobretudo da parte dos segmentos mais conscientes da sociedade brasileira.

 Salvador Bonomo – ex-Deputado Estadual e ex-Promotor de Justiça.

SOBRE PRESÍDIOS E ESCOLAS

Dezembro 26, 2009 por jose caldas

  Acho que foi Pitágoras quem disse isso: “Eduque a criança e não será preciso punir o homem”. Eu li a frase pela primeira vez há uns 20 anos, num cartaz afixado na parede do gabinete de um prefeito do interior. Outra referência, com o mesmo sentido, vem da Bíblia, onde um provérbio de Salomão diz: “Ensina o menino no caminho em que deve andar e mesmo depois de velho não se desviará dele”.

Está chegando a temporada de os pais brigarem por vagas para seus filhos e netos nas escolas públicas. É bom que todos os cidadãos de bem desse País e desse Estado fiquem atentos aos sinais que virão das filas noite adentro nas portas das escolas. É exatamente o que se pode esperar, de novo, juntamente com as justificativas, que não justificarão nada, por parte das autoridades e a omissão de boa parte da mídia amordaçada por grossas verbas publicitárias.

Aliás, no Espírito Santo, há um fato que merece reflexão de todos os contribuintes – uso o termo contribuinte porque, ultimamente, tenho refletido muito sobre sociedade. Quando se é sócio de uma empresa, se sabe que se é sócio nos ônus e nos bônus. Quando se fala em sociedade como a sociedade civil organizada em que vivemos, poucos compreendem que somos sócios mesmo de tudo o que está aí, com seus ônus e bônus. E todos os que moram no Estado, capixabas ou não, fazem parte desse quadro.

O discurso publicitário do Governo me causa espécie. Não vi ninguém contestar a “verdade imperial” que vem sendo massificada dia após dia junto à população: o Espírito Santo é o segundo Estado brasileiro que mais investe no sistema prisional.

Eu teria vergonha, como dirigente público, de proclamar tamanha heresia. Eu sinto vergonha de dizer-me sócio dessa aberração, de imaginar que todos os impostos que pago, e não são poucos, estão sendo direcionados para a construção de presídios e não de escolas para educar nossas crianças e jovens e, quem sabe, de nossos adultos analfabetos funcionais. Daqui a uns dias observem as filas nas portas das escolas públicas do Estado e sintam no estômago a mesma sensação que eu.

Lembro-me, quando morei no Rio, que o então governador Leonel Brizola invadiu aquele Estado com os famosos CIEPs (escolas públicas de tempo integral), criados pelo grande educador Darcy Ribeiro. A iniciativa forçou, anos depois, à adoção de uma política nacional que priorizasse esse tipo de escola, até para impedir que o velho caudilho se projetasse em sua ambição de governar o País. Hoje, vê-se que a idéia caiu no esquecimento, não de poderosos grupos econômicos da educação privada, aumentando o fosso social.

É uma longa discussão, mas o que se cria é uma sensação de medo na população para justificar essa heresia que, antes de ser motivo de orgulho, deveria envergonhar a cada um de nós. Estou muito incomodado, e fico cada vez mais incomodado na medida em que convivo em meios co-relacionados.

Mais de uma vez tive que intervir, em atos solitários, junto a pessoas que conheço na Secretaria de Estado de Educação para cobrar vagas em escolas públicas para filhos de pessoas que eu passei a conhecer. Justiça seja feita: nas vezes em que liguei, a situação foi resolvida, não sei se por competência da amiga servidora que me atende ou por política de Estado. Mas, se é política de Estado, por que é necessário recorrer à rede de relacionamento para garantir o que é direito de todo cidadão, sócio do Estado? E os que não têm essa rede de relacionamento?

Recentemente, fiz entrevistas com três pessoas diferentes sobre o mesmo assunto, a morte da população jovem e o impacto disso no perfil populacional nos próximos 30 anos, e ouvi delas sentenças preocupantes: um advogado, uma delegada e um desembargador.

As entrevistas comporão reportagem que será publicada na revista Capital Social, a ser lançada em breve, mas quero deixar aqui o que me disse o desembargador Pedro Feu Rosa acerca do futuro do Brasil: “O maior inimigo do futuro do Brasil é o homem público brasileiro. Um estagiário do Senado precisa de atestado de bons antecedentes para conseguir seu emprego, mas um senador não precisa de nada disso”.

Menos presídios e mais escolas, é só o que defendo.

O PETRÓLEO É DE TODOS OS BRASILEIROS

Novembro 4, 2009 por jose caldas

Leio na manhã desta quarta-feira, dia 4 de novembro, que o relatório do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) sobre o modelo de partilha na exploração do petróleo na camada pré-sal e a distribuição dos royalties sobre a produção nesses campos prevê a destinação de 18% do total dos royalties para os Estados Produtores, enquanto 6% vão para os municípios produtores e outros 2% para os afetados pela produção.

Outros 74% desses royalties serão distribuídos aos demais brasileiros, sendo que 30% serão destinados à União (Governo Federal), para desenvolver suas políticas públicas, e 44% vão engrossar o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM). Importante saber que esse repasse federal é a principal fonte de receita da maioria das unidades político-administrativas do território brasileiro.

Moro num Estado produtor, Espírito Santo, e deveria, em tese, defender a posição do nosso Governo estadual de que o percentual dos Estados seja maior. Entretanto, resido num município lindo, Vila Velha, com uma absurda discrepância na divisão de recursos públicos. Vila Velha tem a segunda pior receita per capta do Espírito Santo, apesar de ter a maior população. A pior receita é Cariacica, que tem população quase idêntica à de Vila Velha.

Sempre refleti nessa questão das riquezas oriundas do petróleo. Olho para o mundo árabe e, em vez de me encantar com realizações como o autódromo em que foi realizada a prova de fórmula 1 no último domingo, me entristeço. Por que tanta ostentação? Porque seres humanos são, primeiramente, egoístas. Podemos mudar isso, pouco a pouquinho, dentro de cada um de nós.

Os políticos dos Estados e dos municípios não são melhores nem piores do que aqueles que administram a Nação. São exatamente iguais. Já defendi numa redação de vestibular uma tese parecida em relação ao povo e os políticos. Acho que o Congresso Nacional representa, justa e proporcionalmente, a média do comportamento dos cidadãos. Se não vivêssemos uma democracia representativa, poderíamos até chorar na cama, que é lugar quente, mas aqui não, somos nós que colocamos essa gente lá.

O petróleo é uma riqueza da Nação e a distribuição de seus dividendos deve contemplar, o máximo possível, a todos os brasileiros, porque cada uma contribui, na sua justa medida, para a vida de todos.

O que precisamos fazer é criar instrumentos de maior controle sobre os gastos de quem fica com a maior parte, no caso, o Governo Federal, para que promova a justiça social e o tratamento igualitário, bem como participar da definição da política de gastos.

Penso que metade desse dinheiro deveria ser destinada a melhorar a educação dos brasileiros, com melhor remuneração dos professores e investimento na qualidade do ensino público em geral, e que devemos criar formas duras de punição de desvios de conduta no trato com o erário.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor-substituto de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

CHUVAS: UMA HISTÓRIA QUE SE REPETE

Novembro 2, 2009 por jose caldas

Minha sexta-feira, 30 de outubro, começou bem diferente. Acordei pouco antes das 6 horas, como faço nesse dia, pois às 7 tenho que estar em sala de aula para receber meus alunos. Percebi que a chuva não havia parado. Quando olhei pela janela, vi que a água acumulada já invadira o quintal e chegava à garagem. Era impossível sair de casa.

Tomei as primeiras providências: comunicar por torpedo (eitcha tcnologia porreta!!!!) a alguns alunos, pedir que se comunicassem com outros e, ainda, postar uma mensagem por correio eletrônico (quem tem filhos jovens e adolescentes sabe que eles, antes de tomar café, já entram na internet e abrem a caixa de mensagens de emails) avisando que não teríamos aula.

A partir daí, era encarar a realidade. Todo o Estado vem sendo castigado por chuvas antecipadas, gerando transtornos em várias regiões. Estamos sofrendo os efeitos do aquecimento das águas do Pacífico (o fenômeno El Niño), que eleva a umidade na região equatorial, sobremaneira sobre a Amazônia, de onde procede a Massa Equatorial Continental, com impacto sobre o Centro-Sul do País. A combinação dessa massa com as frentes frias vindas do Sul causa esse transtorno.

Erudição acadêmica à parte, o que vale é dizer que muitos dos efeitos dessas situações climáticas, sobre as quais não temos o menor domínio, poderiam ser, se não evitados, pelo menos minimizados por atitudes simples, como limpeza das redes de microdrenagem das cidades e a construção de sistemas de macrodrenagem.

Na impossibilidade de fazer grandes obras, há que se usar a inteligência. Vila Velha, por exemplo, onde moro, é uma cidade muito complicada. A ocupação urbana é sem planejamento e eivada de atitudes irresponsáveis de administradores públicos. A maioria dos bairros alaga por falta de serviços básicos ou por estarem abaixo do nível do mar. Um rapaz vindo do interior, que foi me ajudar, sugeriu uma experiência que viu em sua cidade: o bombeamento da água pluvial direto para o mar. Isso se faz com bombas sobre caminhões, que podem chegar às áreas mais complicadas, instalar as mangueiras e drenar. Está aí uma idéia.

O pior de tudo, porém, é a omissão do poder público. O prefeito está na China e de lá mandou mensagem pelo twiter (que lindo!!!) dizendo que estava acompanhando tudo. Que bom!!! Que consolo para nós, cidadãos, que pagamos vossos salários e vossas diárias!!! Sabem, a maioria dos cidadãos afetados pelas inundações em Vila Velha sequer têm internet, muito menos sabem o que é twiter. Mas, oohhhh!!!!, o prefeito tem twiter e está acompanhando, do outro lado do mundo, o drama de cada um de nós.

Meu filho deixou de fazer uma viagem programada porque não conseguiu sair de casa. Aliás, a inundação piorou quando a maré subiu e impediu qualquer possibilidade de drenagem da água da chuva. Que bom que a gente tem internet para acompanhar o movimento das marés.

Aproveitei para fazer uma experiência científica. Peguei uma régua e comecei a monitorar a subida da água. Claro, como a maré estava subindo, ela desceria na mesma proporção. Acertei em cima, amigos. Na televisão, vimos as imagens da tragédia de cada um. Em Vila Velha, a água começou a baixar com a maré. No início da noite, a água saiu de dentro de casa. Na impossibilidade de lutar contra os moinhos de vento, dá um bom material para trabalho acadêmico.

Minha mulher quase morreu de trabalhar. Na cabeça dela e de minha sogra só vinham as imagens das enchentes do rio Doce, nos anos 70 e 80, em Colatina. Joguei os pés para cima, peguei um livro e fui ler, depois que tiramos as coisas do baixo e deixamos a água ocupar a casa toda. Peguei uma garrafa de vinho já aberta e tomei uma taça. Com os pés na água, minha mulher teve a idéia de fazer uma torta. Todos comemos felizes, às gargalhadas.

Fazer o que??? Montar um dique??? Ah, sim, um amigo me aconselhou a isso e prometo juntar uns 30 sacos de areia para a próxima inundação. Mas que é estressante é. Quando a água baixou, trabalhamos todos juntos para limpar a casa.

Depois das oito da noite, consegui sair de casa, no Sítio Batalha. Demorou porque quando a maré baixou a água custou a drenar. A microdrenagem está toda sem limpeza há mais de um ano.

De carro, fui procurando caminho e vi o lado do descaso. Só o povo salva o próprio povo, já dizia dom João Batista da Motta Albuquerque. Muita gente solidária desatolando carros, empurrando outros, limpando casas. O teatro dos absurdos estava por toda parte. Não havia um único agente público para ajudar. Perto do terminal de Vila Velha, populares montaram uma barreira para diminuir os estragos nos carros. Inundação e buraco é a combinação perfeita para as tragédias no caos urbano.

Os próprios motoristas se orientavam, uns aos outros, para desvios que lhes conduzisse a locais mais seguros.

Quando pensamos que o pior já havia passado, veio a noite de sábado para domingo, dia das bruxas na tradição norte-americana. Choveu o dia inteiro e a noite foi terrível. Em nossa comunidade, não houve quem não tivesse sua casa inundada, a não ser aquelas a partir do segundo andar. A água subiu muito mais rápido que na noite anterior e não abaixou com a descida da maré.

Nossos bueiros, sem limpar há quase um ano, não deram vazão e as ruas ficaram tomadas durante quase todo o dia. E o pior: desta vez, a água veio barrenta e nojenta. Um horror. Desta vez, não houve motivos para bom humor. Passamos o dia limpando a sujeira dentro de casa.

Quando terminamos, juntamos nossa turma, engrossada pelo Osiel e a Rogma, um casal de amigos recentes, e fomos limpar a casa de nosso amigo Waldivo, um senhor sexagenário, que mora sozinho. O “mutirão da solidariedade” limpou a casa dele em pouco mais de uma hora.  Dessa vez nos divertimos muito.

Aliás, vale registrar: o Osiel, assim que soube que nossa casa estava inundada, atravessou a pé a enchente, passando toda a noite conosco, ajudando a salvar móveis e eletrodomésticos.

Sei que em todos os lugares há histórias mais dramáticas do que a de minha família e dos meus vizinhos, mas compete a cada um contar e sua e aprender a cobrar mais, de quem de direito, as providências para minimizar as conseqüências dos fenômenos naturais. Porque de irresponsabilidades e de omissões já estamos cheios.

 José Caldas da Costa é jornalista, escritor, professor-substituto de Geografia na Ufes.

(Publicado, inicialmente, na revista eletrônica Século Diário e atualizada nesta versão)

O CRISTÃO E O CONHECIMENTO ACADÊMICO

Novembro 2, 2009 por jose caldas

 Zakeu Zengo (*)

Em semana recente fui compartilhar a fé com a juventude da Primeira Igreja Baptista de Luanda, num evento dedicado à Semana do Estudante Cristão. Convidaram-me para partilhar a palestra “A importância da formação acadêmica para o cristão”.

O tema, além de oportuno nestes tempos de reconstrução do País, e portanto de reconstrução de mentes e oportunidades também, foi relevante ainda para a necessidade do combate de um velho fantasma associado com a fé e as igrejas: a apologia do obscurantismo.

Muitos acham que ignorância é sinal de boa fé. E que estudar atrapalha o aprofundamento na fé, por causa de incompatibilidades mil entre fé e razão. Há mesmo quem defenda que ter fé já é sinal de fraqueza intelectual e acadêmica. O “intelectual” deve ser herege ou viver em crise para ser brilhante.

Alguns colunistas dos nossos tabloides semanais, quando em causa está jogar pedras contra as aberrações de algumas igrejas em Angola, ou contra as façatarias da IURD, mergulham igualmente nestas insinuações que acabam revigorando na nossa juventude o fantasma da ideologia marxista que por aqui utilizamos para fertilizar o “poder popular”.

Deixemos para lá essas insolências humanas para assegurar primeiro que Deus não é matéria de intelecto ou conhecimento cognitivo. É matéria de fé e de experiência. É isto que os cristãos precisam saber quando começam a se preocupar com a formação intelectual. Quando Oséias registra: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (4.6), não alude ao conhecimento cognitivo, cerebral. É o mesmo sentido de “Adão conheceu sua mulher”. O termo hebraico envolvido dá a ideia de um conhecimento experiencial, emocional, relacional e profundo.

Deus não é matéria de razão pura. É por isto que temos uma Bíblia: ele se revelou. Ele se deu a conhecer. Ele se manifestou na pessoa de Jesus. Podemos conhecer a Deus porque ele se deu a conhecer. Mas duas pessoas podem ler o mesmo exemplar da Bíblia e terem posições diferentes. Porque só se descobre seu sentido verdadeiro pela iluminação do Espírito.

Muitos gostam de exibir um conhecimento de Deus todo especial: Deus fala com eles. Diariamente. Eles não precisam da Bíblia, nem aprender seu sentido. Com um misticismo arrogante, dizem: “Deus falou comigo”. Nunca vi um dizer “Deus falou comigo para ser mais humilde e aprender dos outros”. Deus fala para colocá-los numa posição superior ou para apoiar decisões sem sentido, que eles não querem discutir.

Para já, e isto deve ficar bem claro, o Espírito Santo não obscurece nem emburrece. Ilumina. Esclarece. Capacita. Precisamos de cristãos que pensem e estudem, que se aprofundem na cultura secular, e que a analisem à luz das Escrituras. Precisamos de crentes firmes na Palavra, que entendam o mundo à luz dela, que ajudem a Igreja a se firmar neste mundo confuso.

Conhecer Deus é produto de um coração submisso, de uma mente rendida a Cristo, e com fome da Palavra. Os estudantes devem ser estimulados. A Igreja deve dar apoio e sustentar em oração os jovens que estudam, os adultos que pesquisam, e fortalecê-los no conhecimento de Deus e da Bíblia.

Precisamos e vamos precisar muito de mentes como a de Paulo, lúcida, culta e brilhante. E como ele, “levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo” (2Co 10.4). A verdadeira fé não teme conhecer.

Estudante cristão: cresça, brilhe e seja o melhor. Honre ao Senhor.

 Zakeu António Zengo é teólogo formado no Brasil, doutor em Antropologia e reitor da Universidade Metropolitana de Angola

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

Outubro 13, 2009 por jose caldas

Vou ceder à tentação e voltar a falar de política. É, simplesmente, extraordinário como as coisas acontecem nesse campo. Fiquei quieto durante algum tempo somente observando a cena. E cada dia fico mais curioso com a competência do governador Paulo Hartung para articular a política ao seu redor. Eu não me surpreenderia com nenhum movimento dele, por mais estranho que pareça.

Faz tempo que PH não tem adversários políticos, desde que mandou à lona, de forma definitiva, seu antigo rival, José Ignácio Ferreira, numa vingança fenomenal da derrota que lhe foi imposta na convenção do PSDB em 1998. Aliás, aquela convenção partidária foi um marco histórico da maior relevância, que deveria pautar qualquer trabalho científico sério sobre a política capixaba.

Nunca se deve esquecer que quem salvou a administração hartunguista no primeiro momento, quando as finanças estaduais eram caóticas, foi o Presidente Lula, aportando aos cofres capixabas mais de 400 milhões de antecipação de royalties do petróleo. Como paga, recebeu uma célebre omissão na reeleição, em 2006, quando Lula derrotou José Serra, velho amigo do político capixaba.

De arranjo político em arranjo político, os potenciais inimigos foram sendo colocados na cadeia, na marginalidade social, no ostracismo ou debaixo do chinelo. É muito desagradável, do ponto de vista da democracia, a falta de opções, que Paulo vem criando no Espírito Santo dos últimos oito anos, paralelo ao fenômeno da explosão econômica satélite do sucesso do governo Lula.

Nas eleições de 2002, o nome do atual governador ainda não tinha o peso de hoje, apesar de, à época, ele ser senador eleito com expressiva votação em 1998. O ex-governador Max Mauro foi o último político capixaba a fazer-lhe sombra. Há quem diga até mesmo que, se o pleito tivesse mais 15 dias, Max seria capaz de virar o resultado. Paulo venceu com 53,9% dos votos válidos, mas o representante do clã dos Mauro fez expressivos 41,5%, mesmo sem recursos financeiros.

Com ajuda de Lula, Hartung colocou as finanças públicas em ordem, fez uma bem articulada campanha de marketing do bem contra o mal e chegou com todo gás em 2006. Quem pensava ter no, então, deputado federal Sérgio Vidigal uma opção, sofreu uma grande decepção. Ele utilizou-se do pleito muito mais como um trampolim para voltar à Prefeitura de Serra dois anos depois do que como uma disputa séria.

Vidigal ensaiou um discurso de oposição, mas jamais utilizou as armas que, se supunha, poderia ter para derrubar o governador. A segurança pública caótica passava ao largo do processo eleitoral, graças ao marketing político e ao não menos competente poder de articulação de Paulo Hartung. O resultado foi um estrondo: de 800 mil, Paulo Hartung saltou para mais de 1,3 milhão de votos. De 53%, pulou para 77% dos votos. A maior votação individual, proporcionalmente, dentre todos os candidatos a Governo no País. Vidigal ficou em módicos 21%, mas fez sua cama.

Nas eleições municipais de 2008, o jogo ficou claro. Vidigal não era para valer. Teve as bênçãos do Palácio Anchieta para dar um golpe no, virtualmente, prefeito reeleito Audifax Barcelos, sua cria política, impediu sua candidatura no PDT e ganhou fácil a Prefeitura da Serra de novo.

Os meses que se seguiram ao pleito de 2008 revelaram surpresas e mais surpresas. Quem procurava uma alternativa a PH, ficou órfão. Acreditava-se que Guerino Balestrassi, que derrotou a estratégia palaciana em Colatina (será que o Palácio queria mesmo eleger o deputado Paulo Foleto?), e mesmo Audifax pudessem compor uma frente alternativa para as eleições de 2010. Mas o que aconteceu? Poucos meses se passaram e os dois foram compor a equipe do governo. Agora, serão candidatos a qualquer coisa que o patrão mandar.

Cansado, o velho Max, que ainda havia tentado uma eleição ao Senado em 2006, sendo massacrado pelo esquema político e financeiro palaciano de apoio a Renato Casagrande, saiu derrotado também nas municipais de 2008, a partir de seu próprio centro de resistência política, Vila Velha.

Sem adversários, com o mais completo controle sobre todas as instâncias de poder no Espírito Santo, inclusive as empresariais, determinando como e onde devem ser colocados os apoios, Paulo Hartung move-se com desenvoltura e qualquer coisa pode acontecer em 2010. Até mesmo a mais surpreendente delas, deixada vazar por uma velha raposa política, aliada do governador, em uma reunião em data que não vou revelar, mas que foi realizada sob a brisa do mar. Quando um velho súdito disse que seria candidato a deputado estadual, o assecla reagiu, em ato falho: “Você vai concorrer com o Paulo?”

Absurdo? Nem tanto, se se considerar uma estratégia de busca de um terceiro mandato virtual. Raciocinem comigo. O candidato que está posto pelo Palácio Anchieta ao governo é o vice-governador Ricardo Ferraço. Pelo caminho natural, então, Paulo Hartung deixaria o governo seis meses antes para se candidatar ao Senado, o que daria a Ricardo o direito apenas a um mandato. Assumindo o governo nos últimos nove meses, Ricardo Ferraço estaria na condição de candidato à reeleição e, por isso, não poderia, quatro anos depois, concorrer ao mesmo cargo.

O Senado Federal renova em 2/3 no próximo ano. Ou seja, dois mandatos de senadores estão vencendo: os de Magno Malta e de Gerson Camata. A mulher de Gerson, Rita Camata, acaba de filiar-se ao PSDB com a orientação da cúpula para ser candidata a vice de Ricardo, do PMDB. Uma composição que tiraria do páreo a candidatura de Luiz Paulo Velozzo Lucas.

Magno Malta corre numa raia própria e, apesar de um breve desgaste nos anos de 2007 e 2008, deu a volta por cima e hoje, com a CPI da Pedofilia, é o político capixaba de maior visibilidade no Planeta. Ele corre na raia dos evangélicos, o que deve lhe assegurar a renovação de seu mandato. Restaria, então, uma vaga no Senado. Se Paulo Hartung sair candidato, seu aliado Gerson Camata iria mesmo abrir uma padaria, depois de “trocentos” anos de política? Duvi-dê-ó-dó!!!!

Qual a alternativa? Ora, o grande erro político do ex-governador gaúcho e fluminense Leonel Brizola foi insistir em candidaturas a Presidente, fadadas ao fracasso, em vez de encarar uma corrida à Câmara dos Deputados, contribuindo para formar uma consistente bancada de parlamentares de seu partido, o PDT.

Paulo Hartung é um animal político, extremamente, inteligente e sabe que, se ganhou admiradores, colecionou, se não adversários, pelo menos muitos inimigos últimos oito anos. Perder o controle não faz parte de seus planos. Mas, já que a legislação não permite um terceiro mandato, qual seria, então, um caminho para um virtual PH III?

Para quem conseguiu ressuscitar um político tido como morto, que serviu à ditadura militar, que ele mesmo, Paulo Hartung, combateu como líder estudantil e quadro do Partido Comunista, fazendo desse político presidente de um dos poderes republicanos no Estado, é bom não duvidar da capacidade do governador de contrariar a lógica.

Nos porões do Palácio Anchieta calcula-se qual seria a capacidade de voto de Paulo Hartung numa eventual candidatura a deputado estadual. Fala-se que ele poderia estabelecer uma anomalia: ter, nominalmente, 50% dos votos. Ou seja, poderia puxar, consigo, uma bancada que seria a metade da Assembléia Legislativa, através da legenda. Particularmente, acho essa conta ilógica e poderia escrever um livro defendendo essa tese, tomando por base as estatísticas e peculiaridades de uma eleição de “vereador” estadual, mas quem é que ainda acredita na lógica da política? Mas, admitamos: não puxa 15, mas puxa 10 deputados. Mais o poder de influência, e está criada a zona de convergência.

Num raciocínio maluco como esse, quem seria o presidente da Assembléia Legislativa, um poder hoje sob torniquete do chefe do Executivo? PH III, claro. E estaria aberto o caminho para mais um mandato do aliado Gerson Camata no Senado e, sem Ricardo poder se recandidatar, por impedimento da legislação, estaríamos a um passo de, em 2014, termos PH IV seguido de PH V, numa versão tupiniquim do xeique dos Emirados do Espírito Santo, quando o petróleo do pré-sal, finalmente, jorrar por essas plagas.

E imaginar que tem gente que acha Lula esperto por querer eleger Dilma, assumir a presidência da Petrobrás e, depois, voltar candidato em 2014 para presidir o País na realização das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro!

José Caldas da Costa – jornalista, escritor, professor-substituto de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)