O PETRÓLEO É DE TODOS OS BRASILEIROS

Novembro 4, 2009 por jose caldas

Leio na manhã desta quarta-feira, dia 4 de novembro, que o relatório do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) sobre o modelo de partilha na exploração do petróleo na camada pré-sal e a distribuição dos royalties sobre a produção nesses campos prevê a destinação de 18% do total dos royalties para os Estados Produtores, enquanto 6% vão para os municípios produtores e outros 2% para os afetados pela produção.

Outros 74% desses royalties serão distribuídos aos demais brasileiros, sendo que 30% serão destinados à União (Governo Federal), para desenvolver suas políticas públicas, e 44% vão engrossar o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM). Importante saber que esse repasse federal é a principal fonte de receita da maioria das unidades político-administrativas do território brasileiro.

Moro num Estado produtor, Espírito Santo, e deveria, em tese, defender a posição do nosso Governo estadual de que o percentual dos Estados seja maior. Entretanto, resido num município lindo, Vila Velha, com uma absurda discrepância na divisão de recursos públicos. Vila Velha tem a segunda pior receita per capta do Espírito Santo, apesar de ter a maior população. A pior receita é Cariacica, que tem população quase idêntica à de Vila Velha.

Sempre refleti nessa questão das riquezas oriundas do petróleo. Olho para o mundo árabe e, em vez de me encantar com realizações como o autódromo em que foi realizada a prova de fórmula 1 no último domingo, me entristeço. Por que tanta ostentação? Porque seres humanos são, primeiramente, egoístas. Podemos mudar isso, pouco a pouquinho, dentro de cada um de nós.

Os políticos dos Estados e dos municípios não são melhores nem piores do que aqueles que administram a Nação. São exatamente iguais. Já defendi numa redação de vestibular uma tese parecida em relação ao povo e os políticos. Acho que o Congresso Nacional representa, justa e proporcionalmente, a média do comportamento dos cidadãos. Se não vivêssemos uma democracia representativa, poderíamos até chorar na cama, que é lugar quente, mas aqui não, somos nós que colocamos essa gente lá.

O petróleo é uma riqueza da Nação e a distribuição de seus dividendos deve contemplar, o máximo possível, a todos os brasileiros, porque cada uma contribui, na sua justa medida, para a vida de todos.

O que precisamos fazer é criar instrumentos de maior controle sobre os gastos de quem fica com a maior parte, no caso, o Governo Federal, para que promova a justiça social e o tratamento igualitário, bem como participar da definição da política de gastos.

Penso que metade desse dinheiro deveria ser destinada a melhorar a educação dos brasileiros, com melhor remuneração dos professores e investimento na qualidade do ensino público em geral, e que devemos criar formas duras de punição de desvios de conduta no trato com o erário.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor-substituto de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

CHUVAS: UMA HISTÓRIA QUE SE REPETE

Novembro 2, 2009 por jose caldas

Minha sexta-feira, 30 de outubro, começou bem diferente. Acordei pouco antes das 6 horas, como faço nesse dia, pois às 7 tenho que estar em sala de aula para receber meus alunos. Percebi que a chuva não havia parado. Quando olhei pela janela, vi que a água acumulada já invadira o quintal e chegava à garagem. Era impossível sair de casa.

Tomei as primeiras providências: comunicar por torpedo (eitcha tcnologia porreta!!!!) a alguns alunos, pedir que se comunicassem com outros e, ainda, postar uma mensagem por correio eletrônico (quem tem filhos jovens e adolescentes sabe que eles, antes de tomar café, já entram na internet e abrem a caixa de mensagens de emails) avisando que não teríamos aula.

A partir daí, era encarar a realidade. Todo o Estado vem sendo castigado por chuvas antecipadas, gerando transtornos em várias regiões. Estamos sofrendo os efeitos do aquecimento das águas do Pacífico (o fenômeno El Niño), que eleva a umidade na região equatorial, sobremaneira sobre a Amazônia, de onde procede a Massa Equatorial Continental, com impacto sobre o Centro-Sul do País. A combinação dessa massa com as frentes frias vindas do Sul causa esse transtorno.

Erudição acadêmica à parte, o que vale é dizer que muitos dos efeitos dessas situações climáticas, sobre as quais não temos o menor domínio, poderiam ser, se não evitados, pelo menos minimizados por atitudes simples, como limpeza das redes de microdrenagem das cidades e a construção de sistemas de macrodrenagem.

Na impossibilidade de fazer grandes obras, há que se usar a inteligência. Vila Velha, por exemplo, onde moro, é uma cidade muito complicada. A ocupação urbana é sem planejamento e eivada de atitudes irresponsáveis de administradores públicos. A maioria dos bairros alaga por falta de serviços básicos ou por estarem abaixo do nível do mar. Um rapaz vindo do interior, que foi me ajudar, sugeriu uma experiência que viu em sua cidade: o bombeamento da água pluvial direto para o mar. Isso se faz com bombas sobre caminhões, que podem chegar às áreas mais complicadas, instalar as mangueiras e drenar. Está aí uma idéia.

O pior de tudo, porém, é a omissão do poder público. O prefeito está na China e de lá mandou mensagem pelo twiter (que lindo!!!) dizendo que estava acompanhando tudo. Que bom!!! Que consolo para nós, cidadãos, que pagamos vossos salários e vossas diárias!!! Sabem, a maioria dos cidadãos afetados pelas inundações em Vila Velha sequer têm internet, muito menos sabem o que é twiter. Mas, oohhhh!!!!, o prefeito tem twiter e está acompanhando, do outro lado do mundo, o drama de cada um de nós.

Meu filho deixou de fazer uma viagem programada porque não conseguiu sair de casa. Aliás, a inundação piorou quando a maré subiu e impediu qualquer possibilidade de drenagem da água da chuva. Que bom que a gente tem internet para acompanhar o movimento das marés.

Aproveitei para fazer uma experiência científica. Peguei uma régua e comecei a monitorar a subida da água. Claro, como a maré estava subindo, ela desceria na mesma proporção. Acertei em cima, amigos. Na televisão, vimos as imagens da tragédia de cada um. Em Vila Velha, a água começou a baixar com a maré. No início da noite, a água saiu de dentro de casa. Na impossibilidade de lutar contra os moinhos de vento, dá um bom material para trabalho acadêmico.

Minha mulher quase morreu de trabalhar. Na cabeça dela e de minha sogra só vinham as imagens das enchentes do rio Doce, nos anos 70 e 80, em Colatina. Joguei os pés para cima, peguei um livro e fui ler, depois que tiramos as coisas do baixo e deixamos a água ocupar a casa toda. Peguei uma garrafa de vinho já aberta e tomei uma taça. Com os pés na água, minha mulher teve a idéia de fazer uma torta. Todos comemos felizes, às gargalhadas.

Fazer o que??? Montar um dique??? Ah, sim, um amigo me aconselhou a isso e prometo juntar uns 30 sacos de areia para a próxima inundação. Mas que é estressante é. Quando a água baixou, trabalhamos todos juntos para limpar a casa.

Depois das oito da noite, consegui sair de casa, no Sítio Batalha. Demorou porque quando a maré baixou a água custou a drenar. A microdrenagem está toda sem limpeza há mais de um ano.

De carro, fui procurando caminho e vi o lado do descaso. Só o povo salva o próprio povo, já dizia dom João Batista da Motta Albuquerque. Muita gente solidária desatolando carros, empurrando outros, limpando casas. O teatro dos absurdos estava por toda parte. Não havia um único agente público para ajudar. Perto do terminal de Vila Velha, populares montaram uma barreira para diminuir os estragos nos carros. Inundação e buraco é a combinação perfeita para as tragédias no caos urbano.

Os próprios motoristas se orientavam, uns aos outros, para desvios que lhes conduzisse a locais mais seguros.

Quando pensamos que o pior já havia passado, veio a noite de sábado para domingo, dia das bruxas na tradição norte-americana. Choveu o dia inteiro e a noite foi terrível. Em nossa comunidade, não houve quem não tivesse sua casa inundada, a não ser aquelas a partir do segundo andar. A água subiu muito mais rápido que na noite anterior e não abaixou com a descida da maré.

Nossos bueiros, sem limpar há quase um ano, não deram vazão e as ruas ficaram tomadas durante quase todo o dia. E o pior: desta vez, a água veio barrenta e nojenta. Um horror. Desta vez, não houve motivos para bom humor. Passamos o dia limpando a sujeira dentro de casa.

Quando terminamos, juntamos nossa turma, engrossada pelo Osiel e a Rogma, um casal de amigos recentes, e fomos limpar a casa de nosso amigo Waldivo, um senhor sexagenário, que mora sozinho. O “mutirão da solidariedade” limpou a casa dele em pouco mais de uma hora.  Dessa vez nos divertimos muito.

Aliás, vale registrar: o Osiel, assim que soube que nossa casa estava inundada, atravessou a pé a enchente, passando toda a noite conosco, ajudando a salvar móveis e eletrodomésticos.

Sei que em todos os lugares há histórias mais dramáticas do que a de minha família e dos meus vizinhos, mas compete a cada um contar e sua e aprender a cobrar mais, de quem de direito, as providências para minimizar as conseqüências dos fenômenos naturais. Porque de irresponsabilidades e de omissões já estamos cheios.

 José Caldas da Costa é jornalista, escritor, professor-substituto de Geografia na Ufes.

(Publicado, inicialmente, na revista eletrônica Século Diário e atualizada nesta versão)

O CRISTÃO E O CONHECIMENTO ACADÊMICO

Novembro 2, 2009 por jose caldas

 Zakeu Zengo (*)

Em semana recente fui compartilhar a fé com a juventude da Primeira Igreja Baptista de Luanda, num evento dedicado à Semana do Estudante Cristão. Convidaram-me para partilhar a palestra “A importância da formação acadêmica para o cristão”.

O tema, além de oportuno nestes tempos de reconstrução do País, e portanto de reconstrução de mentes e oportunidades também, foi relevante ainda para a necessidade do combate de um velho fantasma associado com a fé e as igrejas: a apologia do obscurantismo.

Muitos acham que ignorância é sinal de boa fé. E que estudar atrapalha o aprofundamento na fé, por causa de incompatibilidades mil entre fé e razão. Há mesmo quem defenda que ter fé já é sinal de fraqueza intelectual e acadêmica. O “intelectual” deve ser herege ou viver em crise para ser brilhante.

Alguns colunistas dos nossos tabloides semanais, quando em causa está jogar pedras contra as aberrações de algumas igrejas em Angola, ou contra as façatarias da IURD, mergulham igualmente nestas insinuações que acabam revigorando na nossa juventude o fantasma da ideologia marxista que por aqui utilizamos para fertilizar o “poder popular”.

Deixemos para lá essas insolências humanas para assegurar primeiro que Deus não é matéria de intelecto ou conhecimento cognitivo. É matéria de fé e de experiência. É isto que os cristãos precisam saber quando começam a se preocupar com a formação intelectual. Quando Oséias registra: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (4.6), não alude ao conhecimento cognitivo, cerebral. É o mesmo sentido de “Adão conheceu sua mulher”. O termo hebraico envolvido dá a ideia de um conhecimento experiencial, emocional, relacional e profundo.

Deus não é matéria de razão pura. É por isto que temos uma Bíblia: ele se revelou. Ele se deu a conhecer. Ele se manifestou na pessoa de Jesus. Podemos conhecer a Deus porque ele se deu a conhecer. Mas duas pessoas podem ler o mesmo exemplar da Bíblia e terem posições diferentes. Porque só se descobre seu sentido verdadeiro pela iluminação do Espírito.

Muitos gostam de exibir um conhecimento de Deus todo especial: Deus fala com eles. Diariamente. Eles não precisam da Bíblia, nem aprender seu sentido. Com um misticismo arrogante, dizem: “Deus falou comigo”. Nunca vi um dizer “Deus falou comigo para ser mais humilde e aprender dos outros”. Deus fala para colocá-los numa posição superior ou para apoiar decisões sem sentido, que eles não querem discutir.

Para já, e isto deve ficar bem claro, o Espírito Santo não obscurece nem emburrece. Ilumina. Esclarece. Capacita. Precisamos de cristãos que pensem e estudem, que se aprofundem na cultura secular, e que a analisem à luz das Escrituras. Precisamos de crentes firmes na Palavra, que entendam o mundo à luz dela, que ajudem a Igreja a se firmar neste mundo confuso.

Conhecer Deus é produto de um coração submisso, de uma mente rendida a Cristo, e com fome da Palavra. Os estudantes devem ser estimulados. A Igreja deve dar apoio e sustentar em oração os jovens que estudam, os adultos que pesquisam, e fortalecê-los no conhecimento de Deus e da Bíblia.

Precisamos e vamos precisar muito de mentes como a de Paulo, lúcida, culta e brilhante. E como ele, “levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo” (2Co 10.4). A verdadeira fé não teme conhecer.

Estudante cristão: cresça, brilhe e seja o melhor. Honre ao Senhor.

 Zakeu António Zengo é teólogo formado no Brasil, doutor em Antropologia e reitor da Universidade Metropolitana de Angola

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

Outubro 13, 2009 por jose caldas

Vou ceder à tentação e voltar a falar de política. É, simplesmente, extraordinário como as coisas acontecem nesse campo. Fiquei quieto durante algum tempo somente observando a cena. E cada dia fico mais curioso com a competência do governador Paulo Hartung para articular a política ao seu redor. Eu não me surpreenderia com nenhum movimento dele, por mais estranho que pareça.

Faz tempo que PH não tem adversários políticos, desde que mandou à lona, de forma definitiva, seu antigo rival, José Ignácio Ferreira, numa vingança fenomenal da derrota que lhe foi imposta na convenção do PSDB em 1998. Aliás, aquela convenção partidária foi um marco histórico da maior relevância, que deveria pautar qualquer trabalho científico sério sobre a política capixaba.

Nunca se deve esquecer que quem salvou a administração hartunguista no primeiro momento, quando as finanças estaduais eram caóticas, foi o Presidente Lula, aportando aos cofres capixabas mais de 400 milhões de antecipação de royalties do petróleo. Como paga, recebeu uma célebre omissão na reeleição, em 2006, quando Lula derrotou José Serra, velho amigo do político capixaba.

De arranjo político em arranjo político, os potenciais inimigos foram sendo colocados na cadeia, na marginalidade social, no ostracismo ou debaixo do chinelo. É muito desagradável, do ponto de vista da democracia, a falta de opções, que Paulo vem criando no Espírito Santo dos últimos oito anos, paralelo ao fenômeno da explosão econômica satélite do sucesso do governo Lula.

Nas eleições de 2002, o nome do atual governador ainda não tinha o peso de hoje, apesar de, à época, ele ser senador eleito com expressiva votação em 1998. O ex-governador Max Mauro foi o último político capixaba a fazer-lhe sombra. Há quem diga até mesmo que, se o pleito tivesse mais 15 dias, Max seria capaz de virar o resultado. Paulo venceu com 53,9% dos votos válidos, mas o representante do clã dos Mauro fez expressivos 41,5%, mesmo sem recursos financeiros.

Com ajuda de Lula, Hartung colocou as finanças públicas em ordem, fez uma bem articulada campanha de marketing do bem contra o mal e chegou com todo gás em 2006. Quem pensava ter no, então, deputado federal Sérgio Vidigal uma opção, sofreu uma grande decepção. Ele utilizou-se do pleito muito mais como um trampolim para voltar à Prefeitura de Serra dois anos depois do que como uma disputa séria.

Vidigal ensaiou um discurso de oposição, mas jamais utilizou as armas que, se supunha, poderia ter para derrubar o governador. A segurança pública caótica passava ao largo do processo eleitoral, graças ao marketing político e ao não menos competente poder de articulação de Paulo Hartung. O resultado foi um estrondo: de 800 mil, Paulo Hartung saltou para mais de 1,3 milhão de votos. De 53%, pulou para 77% dos votos. A maior votação individual, proporcionalmente, dentre todos os candidatos a Governo no País. Vidigal ficou em módicos 21%, mas fez sua cama.

Nas eleições municipais de 2008, o jogo ficou claro. Vidigal não era para valer. Teve as bênçãos do Palácio Anchieta para dar um golpe no, virtualmente, prefeito reeleito Audifax Barcelos, sua cria política, impediu sua candidatura no PDT e ganhou fácil a Prefeitura da Serra de novo.

Os meses que se seguiram ao pleito de 2008 revelaram surpresas e mais surpresas. Quem procurava uma alternativa a PH, ficou órfão. Acreditava-se que Guerino Balestrassi, que derrotou a estratégia palaciana em Colatina (será que o Palácio queria mesmo eleger o deputado Paulo Foleto?), e mesmo Audifax pudessem compor uma frente alternativa para as eleições de 2010. Mas o que aconteceu? Poucos meses se passaram e os dois foram compor a equipe do governo. Agora, serão candidatos a qualquer coisa que o patrão mandar.

Cansado, o velho Max, que ainda havia tentado uma eleição ao Senado em 2006, sendo massacrado pelo esquema político e financeiro palaciano de apoio a Renato Casagrande, saiu derrotado também nas municipais de 2008, a partir de seu próprio centro de resistência política, Vila Velha.

Sem adversários, com o mais completo controle sobre todas as instâncias de poder no Espírito Santo, inclusive as empresariais, determinando como e onde devem ser colocados os apoios, Paulo Hartung move-se com desenvoltura e qualquer coisa pode acontecer em 2010. Até mesmo a mais surpreendente delas, deixada vazar por uma velha raposa política, aliada do governador, em uma reunião em data que não vou revelar, mas que foi realizada sob a brisa do mar. Quando um velho súdito disse que seria candidato a deputado estadual, o assecla reagiu, em ato falho: “Você vai concorrer com o Paulo?”

Absurdo? Nem tanto, se se considerar uma estratégia de busca de um terceiro mandato virtual. Raciocinem comigo. O candidato que está posto pelo Palácio Anchieta ao governo é o vice-governador Ricardo Ferraço. Pelo caminho natural, então, Paulo Hartung deixaria o governo seis meses antes para se candidatar ao Senado, o que daria a Ricardo o direito apenas a um mandato. Assumindo o governo nos últimos nove meses, Ricardo Ferraço estaria na condição de candidato à reeleição e, por isso, não poderia, quatro anos depois, concorrer ao mesmo cargo.

O Senado Federal renova em 2/3 no próximo ano. Ou seja, dois mandatos de senadores estão vencendo: os de Magno Malta e de Gerson Camata. A mulher de Gerson, Rita Camata, acaba de filiar-se ao PSDB com a orientação da cúpula para ser candidata a vice de Ricardo, do PMDB. Uma composição que tiraria do páreo a candidatura de Luiz Paulo Velozzo Lucas.

Magno Malta corre numa raia própria e, apesar de um breve desgaste nos anos de 2007 e 2008, deu a volta por cima e hoje, com a CPI da Pedofilia, é o político capixaba de maior visibilidade no Planeta. Ele corre na raia dos evangélicos, o que deve lhe assegurar a renovação de seu mandato. Restaria, então, uma vaga no Senado. Se Paulo Hartung sair candidato, seu aliado Gerson Camata iria mesmo abrir uma padaria, depois de “trocentos” anos de política? Duvi-dê-ó-dó!!!!

Qual a alternativa? Ora, o grande erro político do ex-governador gaúcho e fluminense Leonel Brizola foi insistir em candidaturas a Presidente, fadadas ao fracasso, em vez de encarar uma corrida à Câmara dos Deputados, contribuindo para formar uma consistente bancada de parlamentares de seu partido, o PDT.

Paulo Hartung é um animal político, extremamente, inteligente e sabe que, se ganhou admiradores, colecionou, se não adversários, pelo menos muitos inimigos últimos oito anos. Perder o controle não faz parte de seus planos. Mas, já que a legislação não permite um terceiro mandato, qual seria, então, um caminho para um virtual PH III?

Para quem conseguiu ressuscitar um político tido como morto, que serviu à ditadura militar, que ele mesmo, Paulo Hartung, combateu como líder estudantil e quadro do Partido Comunista, fazendo desse político presidente de um dos poderes republicanos no Estado, é bom não duvidar da capacidade do governador de contrariar a lógica.

Nos porões do Palácio Anchieta calcula-se qual seria a capacidade de voto de Paulo Hartung numa eventual candidatura a deputado estadual. Fala-se que ele poderia estabelecer uma anomalia: ter, nominalmente, 50% dos votos. Ou seja, poderia puxar, consigo, uma bancada que seria a metade da Assembléia Legislativa, através da legenda. Particularmente, acho essa conta ilógica e poderia escrever um livro defendendo essa tese, tomando por base as estatísticas e peculiaridades de uma eleição de “vereador” estadual, mas quem é que ainda acredita na lógica da política? Mas, admitamos: não puxa 15, mas puxa 10 deputados. Mais o poder de influência, e está criada a zona de convergência.

Num raciocínio maluco como esse, quem seria o presidente da Assembléia Legislativa, um poder hoje sob torniquete do chefe do Executivo? PH III, claro. E estaria aberto o caminho para mais um mandato do aliado Gerson Camata no Senado e, sem Ricardo poder se recandidatar, por impedimento da legislação, estaríamos a um passo de, em 2014, termos PH IV seguido de PH V, numa versão tupiniquim do xeique dos Emirados do Espírito Santo, quando o petróleo do pré-sal, finalmente, jorrar por essas plagas.

E imaginar que tem gente que acha Lula esperto por querer eleger Dilma, assumir a presidência da Petrobrás e, depois, voltar candidato em 2014 para presidir o País na realização das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro!

José Caldas da Costa – jornalista, escritor, professor-substituto de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

RIO 2016 – O QUE A GENTE GANHA COM ISSO?

Outubro 3, 2009 por jose caldas

Valdivo é o nome de um vizinho que tenho em Vila Velha, onde moro, e que se tornou um novo amigo dos últimos seis meses. Ficou tão intenso o relacionamento que ele me cobra sempre passar no meio da tarde na casa dele para tomar um café. Como tenho um modo de vida que foge um pouco à regra geral, costumo ter esse tempinho para um papo mineiro, exceto quando não o tenho.

Valdivo é aposentado, tem 20 anos a mais que eu, considera-se um “analfabeto” pela sua pouca escolaridade, construída quando ele já era adulto e saiu da roça, em Cachoeirinha de Itaúnas, interior de Barra de São Francisco, para tentar a vida na Usiminas, em Ipatinga (MG). E por lá fincou raízes, constituindo família e construindo um sólido patrimônio imóvel, com muito trabalho.

Além do emprego na Usiminas, aprendeu a trabalhar como fotógrafo nas horas vagas. Quando ganhou fôlego, largou o emprego e empreendeu em seu próprio negócio, apesar de sua baixa escolaridade, com um laboratório de revelações antes da era digital. Graças a conceitos básicos como gastar menos do que ganha, viver com simplicidade, atender sempre às necessidades do cliente, e fazer poupança – que ele fez em imóveis -, tem uma aposentadoria acima da média dos brasileiros.

Quando eu lhe disse que, pelas estatísticas do IBGE, ele é um “aposentado rico”, Valdivo quase me bateu. Claro, ele não se considera rico, porque nunca teve isso como prioridade. Mas, tirando tudo o que teve que dividir com filhos e herdeiros, ainda tem uma base financeira sólida, que lhe dá tranquilidade para viver parte do mês em Vila Velha, em casa própria, e parte em Ipatinga, em imóvel próprio. Não gasta com luxo. Seu carro é um Gol, que não é zero quilômetro.

Meu amigo é quase septuagenário. Foi com ele, tomando um café feito na hora, de pó torrado e moído na roça, e um pedaço de queijo curtido, que comemorei a vitória do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Antes que eu perguntasse qualquer coisa, Valdivo disse: “Eu quero trabalhar de voluntário nas Olimpíadas”. Quando os Jogos forem realizados, ele estará com quase 75 anos. E faz planos de estar lá, do melhor jeito que pode.

Mesmo respeitando as opiniões dos que acham que o Brasil não deveria sediar os jogos, dentre os quais o respeitável jornalista Juca Kfuri, eu prefiro posicionar-me do outro lado e compartilhar do entusiasmo do Presidente Lula, que foi às lágrimas após o anúncio da Rio 2016.

Cada lágrima que o Lula deixa rolar é um ponto que soma com a massa brasileira. O que faz a diferença entre ele e os outros é a autenticidade. Lula é capaz de errar uma concordância nominal com a maior naturalidade, como qualquer brasileiro, e não ser mais cobrado por isso, apesar de ter gente faturando com livros que exploram esse linguajar próprio do homem que não pôde ir além da quarta série primária mas que contrariou toda a lógica das elites e tornou-se Presidente do maior País da América Latina e que, no momento em que sediar as primeiras Olimpíadas do Continente, já será uma grande potência mundial.

Rio 2016, o que a gente ganha com isso? Acredito que vamos ganhar muito, todos. Vamos aprender a não cometer as aberrações dos Jogos Panamericanos, realizados há dois anos no mesmo Rio de Janeiro, e que deixaram rastros de muita desorganização e desperdício de dinheiro público.

Nos próximos sete anos, o Brasil terá uma meta a alcançar e isso vai se refletir no comportamento de todo o nosso povo, tenham certeza disso. Um dos grandes impedimentos ao nosso crescimento como Nação é a falta de noção de objetivos.

Enquanto o País estará se preparando para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, cada brasileiro, em particular, estará fazendo suas metas pessoais. Todos aqueles que reagiram dizendo “eu vou estar lá” têm grande chance de estar. Eu diria, sinceramente, que 90% das pessoas que estarão, de algum modo, na Rio 2016 reagiram lançando-se desafios, como o de Valdivo, que, muito provavelmente, estará lá como voluntário. Quem sabe consertando descargas, ajeitando pisos e azulejos, refazendo instalações hidráulicas, como faz o tempo todo em sua casa, em constante reforma.

Ao mesmo tempo em que desconfio de que teremos uma campanha eleitoral Lula 2014 para que ele seja o realizador dos Jogos, sou obrigado a pensar no impacto disso tudo para o Espírito Santo. A combinação do novo fluxo de divisas por conta da explosão dos negócios de petróleo com o contagiante entusiasmo dos cariocas vai provocar uma revolução no Espírito Santo, podem acreditar.

O Estado poderá tirar um grande proveito dos Jogos de 2016. Estamos a 300 km do Rio (nossa divisa sul) e as duas Regiões Metropolitanas estão separadas por apenas 500 km, que, até lá, muito provavelmente estarão duplicados. De avião, são apenas 50 minutos.

 Já calcularam quantos milhões de pessoas virão ao País nesse período? Turistas de alto poder de consumo. Já imaginaram um investimento maciço no turismo do Sul do Estado (Caparaó, litoral, região serrana central…) para atrair essa gente, com uma boa estratégia de marketing? Estradas, infra-estrutura, hotéis, restaurantes, pousadas, parques, eventos culturais…

Que cada um faça seus planos. Aproveitar-se, economicamente, do momento ou quem sabe participar dos Jogos como atleta, por que não? Isso vai depender da combinação de dois fatores: uma política voltada para o desenvolvimento dos esportes e a vontade de cada um de participar. Sabiam, por exemplo, que o Estado tem um dos 10 melhores times de futebol americano do País? E que há atletas desse esporte, ainda iniciando por aqui, que saem, com recursos próprios, para jogar por seleções de outros Estados porque estão entre os melhores do País?

Eu, por exemplo, já decidi. Estarei com 56 anos e quero participar da Maratona dos Jogos 2016. É o esporte com o qual hoje mais me identifico e me vejo em condições de estar lá. Não sei ainda quais são as regras, mas vou descobrir e me habilitar. Se tiver de fazer um tempo olímpico, tenho tempo suficiente para me condicionar.

Mas também já tomei outras decisões, que não têm nenhuma relação com quanto eu tenho hoje no bolso, no banco ou como déficit orçamentário. Criarei as condições, e já estou no caminho, para passar um mês de férias em 2014 na Copa do Mundo e em 2016, durante as Olimpíadas, na sede dos jogos. E estaremos lá, acompanhando as principais competições, num camarote, junto com minha família e os amigos mais próximos.

E você, quais são seus planos para daqui a cinco anos, na Copa do Mundo no Brasil, e para daqui a sete anos nas Olimpíadas do Rio de Janeiro?

José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor-substituto de Geografia na Ufes. Escreve também nos finais de semana na revista eletrônica www.seculodiario.com.br

RIO DE JANEIRO – QUE VENHAM OS JOGOS DE 2016!

Outubro 2, 2009 por jose caldas

Comecei o dia ouvindo, pelo rádio, o jornalista Juca Kfuri explicando sua posição contrária à realização das Olimpíadas no Brasil. Suas ponderações fazem sentido, e é até bom que seja assim, porque, pelo menos, teremos alguém que, como ele mesmo disse, não é um entusiasta da vitória obtida nesta sexta-feira pelo Rio de Janeiro para sediar os primeiros Jogos da América do Sul, mas que também não ficará contra, depois do fato concretizado.

É bom que haja alguém um pouco fora desse espírito ufanista – confesso que vibrei com o nome do Rio de Janeiro no envelope escolhido como se fosse um gol brasileiro numa final da Copa -, pois, como o próprio Juca disse, ele estará atento para que haja mais responsabilidade com o dinheiro público do que houve nos Jogos Pan-Americanos, também disputados no Rio.

Muita gente fará previsões sobre isso ou aquilo em relação aos Jogos, mas, modestamente, espero que essa conquista sirva para que o Brasil, finalmente, tenha uma política para o desenvolvimento dos esportes. Por mais que se comemore esta ou aquela medalha de ouro pontual, como tem sido nas últimas Olimpíadas, pode-se dizer que as campanhas brasileiras são bem medíocres.

Um País com o tamanho do Brasil tem um enorme potencial para tudo, notadamente, nos dias atuais, nos quais a auto-estima nacional nunca esteve tão em alta, e não somente pela conquista da sede dos Jogos de 2016. Os militares tentaram criar um “espírito de patriotismo”, mas no bico da baioneta. Geraram sentimentos contrastantes e muitas dores, mais do que alegrias.

Hoje, temos um País que pode se dizer democrático, a despeito de um direito de ir e vir ainda ser limitado por desigualdades sociais e de desenvolvimentos regionais, mas estamos no caminho certo. Elegemos um grande intelectual e depois o sucedemos na Presidência da República por um operário que só tem o curso primário, mas é doutor na vida. Que outro País do mundo viveu uma situação tão peculiar quanto esta?

O Rio é lindo, sim, senhor!!! Que todos se empenhem em sanear a cidade de seus males para que 2016 possa marcar a definitiva virada do Brasil em seu reconhecimento mundial. E, se se confirmarem as previsões que já vêm sendo feitas há alguns anos e que se revelam cada vez mais, as Olimpíadas se realizarão num momento em que o País estará à porta de se consolidar como um dos gigantes mundiais. Que isso nos traga mais alegrias que tristezas, mais progresso social e humano do que, propriamente, econômico.

E, depois de tudo isso, para desespero dos adversários políticos do Presidente, Lula consegue mais uma vitória. Depois que Lula foi ridicularizado por dizer que a crise mundial seria uma marolinha no Brasil, e que o País seria o último a entrar e o primeiro a sair dela, e as previsões se concretizaram, só faltava mesmo conseguir a sede dos Jogos Olímpicos. Será que ele pensa em voltar em 2014 para realizar os Jogos?

PENSAMENTO DO DIA – 02 outubro 2009

Outubro 2, 2009 por jose caldas

“Perdoar não significa esquecer o mal que se fez e nem desculpar. Perdoar não significa restabelecer relacionamento. Perdoar significa liberar o outro para ser agraciado por Deus”.

PRESIDENTE DA CPI DA PEDOFILIA QUER REVISÃO SOBRE EMASCULADOS DE ALTAMIRA

Setembro 30, 2009 por jose caldas

Malta
Presidente da CPI da Pedofilia quer revisão sobre emasculados de Altamira
Segundo o parlamentar, há outras pessoas sentenciadas pelos crimes que teriam sido praticados pelo mecânico maranhense Francisco das Chagas


Lenno Edroaldo
O Imparcial (São Luiz, MA)

http://201.24.26.129/oimparcial/imagens/malta0.jpg

Senador Magmo Malta, presidente da CPI da Pedofilia.

 

O senador Magno Malta (PR-ES), presidente da CPI da Pedofilia, vai requerer junto ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) que seja feita a revisão do caso dos meninos emasculados de Altamira, sudoeste do Pará. Segundo o parlamentar, há outras pessoas sentenciadas pelos crimes que teriam sido praticados pelo mecânico Francisco das Chagas Rodrigues de Brito. Chagas cumpre mais de 190 anos de prisão, acusado de matar e emascular 29 meninos em São José de Ribamar e Paço do Lumiar.

Malta está convicto que todos os 19 casos denunciados pelo Ministério Público paraense na verdade foram cometidos por Francisco das Chagas. Essa certeza parte do trabalho feito pelo MP maranhense, polícia e peritos durante as investigações locais. “Foi uma coisa espetacular. A peça que foi produzida, as provas como feitas e como tudo isso foi esclarecido está claro que há inocentes presos no Pará e que o Ministério Público do Pará precisa descer dessa vaidade, dar o braço a torcer. Tem gente lá com mais de 200 anos de sentença sem ter cometido um crime”, disse ele.

O senador esteve em São Luís no início da semana, quando comandou os trabalhos da CPI que percorre o país investigando casos de pedofilia. Na última terça-feira ele esteve reunido com Francisco das Chagas, muito embora seu depoimento não deva acrescentar muito nos próximos dois julgamentos pelos quais o mecânico deve passar até o final do ano. “Ele ficou muito quieto e muito ressabiado, até porque foi mais uma vez condenado [em julgamento realizado segunda-feira, 14]. Tentei provocar, mexer com a sensibilidade dele, mas ele conversou só um pouco mesmo quando falamos sobre suas filhas, mas nada significativo”, afirmou o senador.

Apesar do diálogo pouco esclarecedor, o parlamentar capixaba informou que em breve recorrerá ao CNMP para que de alguma forma a instituição do estado vizinho reveja as denúncias oferecidas ao judiciário paraense. “Vou ao Conselho propor que o Ministério Público do Maranhão seja chamado junto com a polícia, além do policial federal que acompanhou os casos e peritos, para fazer uma representação. Depois tirar uma comissão composta por promotores de estados diferentes e investigadores criminais para que se juntem a uma força-tarefa, incluindo os daqui, para rever o caso e fazer esse convencimento. O que está posto na investigação deixa muito claro que todos esses casos são do Chagas, precisamos fazer justiça”.

ACOMPANHE O CASO AQUI MESMO NO BLOG

 Entre os condenados no Pará está o médico capixaba Césio Flávio Caldas Brandão, contra quem jamais foi produzida uma única prova sequer. Ele foi condenado com base, tão somente, num depoimento de um ancião que disse ter visto sair do mato “um homem parecido com o Dr. Césio”. As provas apresentadas pelo médico de que, nos dias e horários alegados, estava atendendo pacientes em postos de saúde de Altamira, não foram levados em conta.

Uma das testemunhas apresentadas pelo médico acabou acusada de perjúrio durante seu julgamento, ou seja, foi acusada de estar mentindo. Dois meses depois, entretanto, ela foi absolvida da acusação. Ou seja, a Justiça reconheceu que ela não mentiu. Se não mentiu, falou a verdade. Se ela falou a verdade (que o Dr. Césio consultava na hora em que teria cometido os crimes), então quem mentiu?

Aqui mesmo no blog estão informações contundentes sobre o caso.

TERCEIRO SETOR: SEMENTES NO DESERTO

Setembro 29, 2009 por jose caldas

Faz tempo que se ouve falar do Terceiro Setor, termo utilizado para se definir as organizações que não têm vínculo direto com o setor Público, o Estado (Primeiro Setor) e nem com o setor privado, o Mercado (Segundo Setor), embora, no geral, seja um amálgama, ou antes, uma síntese dos dois, para criar as condições de ação comunitária onde o Estado não chega, por sua falência, e o Mercado não chega, porque não dá lucro.

Léster Salamon propôs, em 1992, cinco atributos estruturais e operacionais que distinguem o Terceiro Setor de outros tipos de instituições sociais: formalmente constituídas, estrutura básica não governamental, gestão própria, sem fins lucrativos e algum nível de trabalho voluntário.

Nos meus tempos de academia, como estudante, ouvi muitas críticas de alguns colegas a essas organizações. Recentemente, elas foram atacadas por conta de suspeição de sua utilização pelo Governo, em níveis Federal e Estaduais, para repasse de recursos voltados a ações que beneficiariam, de algum modo, aos amigos do poder.

Há até quem qualifique o Terceiro Setor dentro do campo ideológico da social-democracia, por pretender tornar o capitalismo mais humano. Se se conversar com um marxista, ele dirá que o capitalismo jamais será humano por seu estreito vínculo com o lucro. Mas os membros do Terceiro Setor se entendem mais como gestores sociais (profissionais) do que como militantes, categoria mais vinculada ao conceito de sociedade civil de Antonio Gramsci.

Independente de sua definição, ou do conceito que se tenha sobre ele, fato é que o Terceiro Setor é uma realidade que não pode ser desconsiderada, até porque tem tido importante função social para comunidades desassistidas pelos dois outros setores. No Brasil, já foram catalogadas mais de 500 mil instituições nesse grupo, mas recente reclassificação reduziu esse número para perto de 300 mil, o que não é pouca coisa. Atacar o Terceiro Setor, pura e simplesmente, torna-se um gesto ideológico, que pode vir eivado de injustiça social e desamor pelos desvalidos.

Recentemente, pude ver, de perto, o que esse tipo de ação pode trazer de benefício para as comunidades periféricas. Um grupo de sete médicos, donos de uma empresa de radiologia, resolveu criar um instituto para mobilizar a comunidade e suprir a ausência ou a falha do Estado. Assim se criou a Clínica Solidária de Saúde Preventiva, no coração de Campo Grande, o maior bairro-cidade do Espírito Santo, na populosa Cariacica, município que detém o pior índice de distribuição de renda per capta do Estado.

Quando vi o resultado de uma de suas ações mais recentes, 52 bebês nascidos de 50 mães precoces, todas vivendo em situação de risco social, perguntei a um dos médicos o que teria acontecido se aquelas mães, e seus bebês, não tivessem tido assistência desde os primeiros momentos. Morreriam mais de 30 desses 52 bebês.

Certamente, alguém vai levantar a voz para dizer que o instituto em questão, com seu trabalho, está incentivando a maternidade irresponsável. Afinal, vão argumentar, essas crianças, que agora cuidam de crianças, vão se sentir estimuladas a continuar fazendo da aventura e do prazer físico um meio de “ganhar a vida”. Se alguém me disser isso, não receberá nenhuma refutação, mas apenas um sorriso irônico cheio de significados.

Quando o Herbert de Souza, o Betinho, lançou a Campanha contra a Fome, só não foi mais criticado por causa de sua autoridade moral. Ao mesmo tempo, setores da sociedade levantaram-se em campanhas contra a esmola, o que nem um pouco agradava ao solidário Betinho. Uma de suas melhores colocações sobre o assunto é que queriam privar o ser humano do privilégio de praticar a solidariedade, seja de que forma for.

Voltando ao caso das alegres mães da periferia, e seus belos filhos, materialmente, pobres, mas saudáveis, por terem a mesma assistência que a sociedade somente confere àqueles integrados ao sistema de produção capitalista, e por se alimentarem apenas do leite materno, qualquer um se sensibilizaria com a “convenção de bebês” promovida na inauguração da Clínica Solidária. Infelizmente, a mídia, perfeitamente inserida na sociedade espetáculo, não foi conferir o que se lhe anunciava e privou a sociedade de saber que algo de bom está acontecendo ao seu redor.

Foi curioso observar o esforço de dois desembargadores, que desceram de suas togas e trajaram-se em manga de camisa para falar de igual para igual com líderes comunitários dos mais remotos bairros da região metropolitana. Boa parte do êxito do programa, confidenciam seus gestores, deve-se aos dois magistrados, que utilizam de seu notório saber e de sua visão de mundo para orientar aquela “gente humilde” da canção de Chico Buarque. Longe do glamour dos Tribunais, eles amassam barro na periferia para conhecer a realidade do mundo em que vivem.

De Samuel Meira ouviu-se que se está plantando uma semente no meio do deserto e que essa semente dará origem a uma floresta. E sua contundente crítica aos representantes do Primeiro Setor. Disse ele, com todas as letras, que o poder público tem o dever de atuar, por isso não se pede, mas se exige. E que, quando se recebe, não se agradece. E quando não faz, se cobra. E ninguém ousou dizer o contrário.

De Pedro Feu Rosa, a remissão a uma célebre frase atribuída ao arcebispo Dom João Batista da Mota Albuquerque ao dizer que ali se via o povo salvando o próprio povo. O desembargador citou a Organização Mundial de Saúde como fonte de que 50% do tratamento médico do mundo é solidário e gratuito e que, se as pessoas não fazem isso, teríamos mais bichos-homem nas ruas.

Transitando lado a lado estavam representantes do Primeiro e do Segundo Setor, mas, principalmente, solidários cidadãos da periferia, que não perdem a esperança e nem os seus sonhos. Gente que nos dias anteriores, até pouca horas antes da inauguração de sua Clínica Solidária, havia feito investimento em tempo e trabalho para colocar o lugar do seu jeito. Gente de mãos calejadas pelo trabalho duro e corações lapidados pela generosidade.

Gente simples, mas de grande importância para sua gente, como Guido Evangelista, da Agência de Desenvolvimento Social de Piranema (você, caro leitor, por acaso sabe onde fica isso? Ah, pensava que periferia só dá bandido, não é?), de onde é também a entusiasmada Marília Julieta Porto, da Associação Cariaciquense dos Amigos do Empreendedorismo e da Cultura. É preciso conhecer o enfermeiro-voluntário Adolfo Mucchi, de Flexal II, ou Dalermo Altoé, que compartilha o orgulho de dizer que os melhores médicos atendem em Bela Aurora.

Como é bom conversar com o veterano jornalista Cícero Fantini, que se dedica ao trabalho comunitário de Bela Aurora, bem como ver a alegria e a dedicação da garotada da Banda de Congo Mirim. É uma gente que não sai em coluna social, mas que se constitui na coluna da sociedade que gravita em torno da hipocrisia social.

Nesses encontros, as mesmas lágrimas de gratidão rolam dos olhos de Sara, a jovem mãe que viu seus sonhos de vida renascerem a partir do momento em que foi alcançada pelo Programa de Gravidez Segura capitaneado pelos sete médicos, e dos olhos de Sônia Lyra Coura, a veterana médica que assistiu Sara durante todo o tempo em que durou sua gestação, e a ela continua ligada por laços afetivos, que somente se criam entre almas que caminham juntas pela vida. Uma, grata por ter sido assistida; outra, grata pela oportunidade de assistir.

Para o promotor de Justiça Saint´Clair do Nascimento, essa gente é a sua gente, pois de lá ele saiu para alçar seu vôo solo, sustentado por asas solidárias em direção ao sonho. Quem sabe daqui a alguns anos, alguns desses bebês, que foram resgatados pela mão amiga do amor humano, e tantos outros que virão, possam estar aqui, no meu lugar, compartilhando sua história e dizendo: eu sobrevivi. E, velhinhos, Anphilophio, Fabrício, Sônia e os outros médicos solidários possam sorrir de felicidade, alegrando-se na alma.

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PENSAMENTO DO DIA

Setembro 26, 2009 por jose caldas

“Muitos acreditam que é o amor que cresce, mas é o conhecimento que cresce, e o amor simplesmente se expande para contê-lo. O amor é simplesmente a pele do conhecimento”

(“A Cabana”, página 143)