Skip to content

Brasil, quem somos nós, afinal?

5 de julho de 2016

 

Povo brasileiro

José Caldas da Costa(*)

Tento explicar a um amigo antropólogo estrangeiro quem somos nós. Ele não consegue entender as coisas do Brasil, por mais que estude e tenha morado aqui por mais de vinte anos.

Carrega utopias. Espanta-se com a votação do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados,  que Eduardo Cunha parecia ter absoluto controle. Também não compreende como alguém, junto há tanto tempo, arquitete um plano para derrubar a “companheira presidenta”.

Igualmente, parece não acreditar que os companheiros de cá tenham colocado a perder aquilo que ele considera ter sido o maior programa social de governo dalém mar, embora saiba, como poucos, o quanto os companheiros de lá se locupletam e tiram proveito dos mesmos esquemas que alimentam a corrupção por cá, desde Cabral.

Explico-lhe, para seu maior espanto, que nossa genética sociológica não beneficia suas utopias. Afinal, quem somos nós? Uma mistura de europeus, com africanos e nativos indígenas. Simples assim? Sei não. Quem somos nós, afinal?

Aventureiros portugueses, fugindo da expansão moura, em campanhas marítimas financiadas pelos reis europeus à moda das campanhas políticas financiadas pelos barões das obras públicas cinco séculos depois.

Aventureiros que encontram nativos “ingênuos”, a se encantar com espelhinhos e entregar o ouro. Bons selvagens! Ingenuidade que continua existindo na imaginação de defensores de nativos modernos, que não hesitam em trocar madeiras nobres da amazônica selva por espelhinhos retrovisores de possantes máquinas terrestres. E continuam entregando suas filhas ao homem branco que vem de fora.

Mais portugueses, agora de má fama, para colonizar a terra e dela retirar, por mais de duzentos anos, tudo o que podem, estabelecendo faixas de domínio e proteção de asseclas, embarrigando as índias e as mucamas africanas, para cá trazidas cativas ou aqui nascidas em lares escravos.

Aliás, este é o terceiro elemento de nossa genética antropológica: africanos, retirados à força de suas nações, muitos deles reis tomados prisioneiros de guerras tribais e vendidos como mercadoria, ou simplesmente capturados por mercenários mercadores de gente.

Depois, mais europeus. Espanhóis anarquistas, que a ninguém desejam submeter-se, italianos esfomeados, fugindo de guerras e perseguições, alemães, espertos negociantes sírio-libaneses. Judeus tornados cristãos novos. Japoneses em busca de frentes agrícolas. Essa gente para substituir a mão de obra escrava, recém-tornada livre, mas livre para que?

Quem somos nós? Somos aqueles que culpam os políticos por todos os males da nação, sem nos apercebermos de que a nação somos nós e que os políticos não foram lá colocados por herança divina. Somos aqueles que criticamos as propinas, mas não hesitamos em dar vantagens por um atendimento preferencial. Aqueles que tomamos emprestadas crianças para ter prioridade na fila.

Avançamos a cerca no quintal do vizinho, defendemos o filho contra o professor sem procurar saber se ele tem razão, furamos o sinal vermelho, paramos sobre a faixa de pedestres, estacionamos na vaga de idosos, levamos nossos velhos ao banco para sermos atendidos mais rápido, não devolvemos o troco recebido a maior, instalamos gatonet, sonegamos direitos trabalhistas de nossas domésticas, usamos a carteirinha de estudante do amigo para pagar meia entrada em shows e jogos de futebol, atraímos por nossa personalidade alegre e afastamos por nosso caráter duvidoso.

Sim, amigo antropólogo, estes somos nós. Entendeu ou quer que eu desenhe?

José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia

(Artigo publicado na coluna Opinião de A Tribuna – ES, no dia 02 de junho de 2016)

 

Senador Ricardo Ferraço deixa o PMDB e bate em Dilma

15 de janeiro de 2016

O senador capixaba Ricardo Ferraço, que foi submetido a um vexame público ao ser substituído na disputa pelo Governo do Estado em 2010 pelo, então, senador Renato Casagrande, desligou-se do PMDB nesta sexta-feira (15 de janeiro). Porém, procurou preservar suas relações com o atual comando estadual do partido, inclusive com o governador Paulo Hartung, por quem foi rifado em 2010.

Apesar disso, o senador aconselhou Hartung a “refletir bem” e tomar igual decisão. Na nota, que distribuiu à imprensa, Ricardo Ferraço atribuiu sua saída à insistência do partido em manter “numa aliança nacional espúria com o PT, responsável pela atual derrocada política, moral e econômica do Brasil, com graves consequências sociais”.

Eis a Nota divulgada pelo Senador:

“Meus amigos, informei esta manhã ao líder do PMDB no Senado, Eunício de Oliveira, e ao presidente regional do PMDB no Espírito Santo, deputado federal Lelo Coimbra, o meu desligamento do partido.

Tomei esta decisão a despeito de minha sintonia com a legenda no estado, liderada pelo governador Paulo Hartung, que, desde a sua última administração, vem realizando profundas e positivas mudanças das quais fui e sou parceiro, além de ser um exemplo de gestão pública e de práticas políticas.

Deixo bons amigos e companheiros no PMDB capixaba, com os quais tenho grande apreço e pretendo continuar tendo as mesmas respeitosas relações. A postura digna da legenda no estado se compara a das representações no Rio Grande do Sul, de Pedro Simon, em Pernambuco, de Jarbas Vasconcelos, e em Santa Catarina, do saudoso Luiz Henrique da Silveira, entre outras. A independência e a coragem foram e são as suas marcas.

Mas, infelizmente, a grande mudança que precisamos e devemos realizar no país não será feita pelos nossos estados, mas, sim, no plano nacional. Apelei reiteradas vezes ao PMDB que deixasse a aliança liderada pelo PT e pela presidente Dilma Rousseff na Presidência da República, em nome de suas grandes tradições, notadamente na luta pela redemocratização de nosso país.

Tenho defendido que o partido abandone o quanto antes essa aliança política responsável pela atual derrocada política, moral e econômica do Brasil, com graves consequências sociais. Ingenuamente, cheguei a acreditar que esse afastamento se daria, mas o que temos visto é a insistência na manutenção da aliança espúria, sem perspectivas de novos rumos.

É chegado o momento de buscarmos a união de forças para derrotar de vez esse projeto de poder que tanto mal faz ao nosso país e às futuras gerações.

Com os meus sinceros cumprimentos aos colegas do PMDB, particularmente os do Espírito Santo, continuarei lutando em outras trincheiras por dias melhores para todos, resgatando a honra na política, a justiça social e o desenvolvimento. Como disse o pensador Thiago de Mello, não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é um jeito de caminhar.

Ao expor essa minha convicção, desejo sinceramente que o governador Hartung possa refletir sobre ela e tomar igual decisão de deixar o PMDB”.​

PURITANISMO, HIPOCRISIA E PROJEÇÃO

12 de janeiro de 2016

Aloísio Silva (*)

Jesus Cristo criticava em sua época os hipócritas, “túmulos caiados por fora, mas cheios de podridão por dentro”. Por que túmulos? É como se os hipócritas estivessem mortos, por não perceberem a própria realidade psicológica.

Avaliando passagens bíblicas, notemos que Jesus não condenou a mulher adúltera nem o ladrão Dimas – ambos praticaram crimes considerados hediondos para a época. Talvez porque esses personagens demonstravam estar acordados para seus conflitos psicológicos e, por isso mesmo, dispostos a vencê-los um a um. Porém, antes precisavam identificá-los em Si.

O hipócrita apresenta uma imagem exterior que não condiz com a imagem íntima, ele fixa na imagem externa e, por isso, fica impossibilitado de ter uma proposta sincera de mudança interna. É como se olhasse no espelho e visse um “Ser” que ele não é. Nos dias de hoje chamamos esse comportamento de puritanismo, em referência aos puritanos da Revolução Inglesa.

Hipócritas ou puritanos, nos tornamos vigilantes da vida alheia. Apresentamos uma falsa imagem de perfeição e de grandeza moral, que não nos pertence. Achamos que estamos acima de qualquer suspeita. Não só julgamos, mas também condenamos a conduta e o comportamento alheio. É como se tivéssemos o poder de polícia, podendo dizer o que as pessoas devem ou não devem fazer. Como devem se comportar, que condutas podem adotar.

Ferimos as pessoas próximas, machucamos nossos familiares. Essas pessoas se afastam de nós, pois nos tornamos indivíduos chatos, inconvenientes, tentando proibir o outro de tomar essa ou aquela atitude, que diz respeito à vida dele.

Comportamento sexual é o que predomina na condenação puritana. Por que isso ocorre? Na visão de Freud, o eminente pai da psicanálise, ocorre um fenômeno de fuga, de distorção da realidade, chamado de “Projeção”.

O nosso inconsciente percebe defeitos, desvios ou traumas, que desaprovamos em nós mesmos, e, não tendo a força moral necessária para nos reformar intimamente, fugimos da realidade íntima projetando nos outros as nossas mazelas.

Como perceber se estamos projetando, “hipocrisiando” ou “puritanisiando”?

Será necessário observarmos quais condutas alheias nos incomodam. Que comportamentos das outras pessoas nos deixam indignados? Busquemos o exemplo dos homofóbicos, ou seja, pessoas que dedicam suas vidas a perseguirem os homoafetivos.

Por que uma pessoa heterossexual se incomodaria com a vida do homossexual? Porque trás, dentro de si, uma tendência à homossexualidade, que a consciência corrompida pela religião tradicional condena. Não conseguindo combater, em si, a homossexualidade, distorce a realidade e passa a combater no outro o que reprova em si mesmo. Não raras vezes, quer matar o homossexual externo, porque não consegue aniquilar o homoafetivo que existe dentro dele. É o que, vulgarmente, se diz “dentro do armário”.

Imaginemos se alguém elege como projeto de vida combater a pedofilia. Por que a escolha? Por que foi abusados sexualmente na infância? Ou por que é um pedófilo? Será preciso meditar.

Observemos as pessoas que usam como prioridade nas redes sociais o combate à corrupção. Como é a vida cotidiana dessa pessoa? Ela é alguém, verdadeiramente, honesta? É alguém que não sonega impostos? Essa pessoa não cobra nem paga comissão a ninguém do serviço público? Ela nunca furou uma fila e nem dá um “jeitinho” para resolver as coisas? É mais fácil combater a corrupção nos outros do que em nós mesmos. Porém, qual atitude é mais eficaz – combater a corrupção em si mesmo ou nos outros?

Quando lecionava uma aula sobre projeção, no Curso de Formação em Psicanálise Clínica, duas alunas resolveram fazer uma experiência prática. Uma delas disse à outra: “Eu tenho muita raiva de pessoas invejosas; será uma projeção? Nós somos amigas há muitos anos, você me acha invejosa?”

Assustada, recebeu da amiga a resposta afirmativa. Indignada, ela discordou. Ao que a amiga redarguiu: “É só observarmos os nossos maridos. O meu marido, por exemplo, odeia o gerente do setor que trabalha, porém, ao esbravejar descrevendo o próprio chefe, eu percebo que ele descreve a si mesmo”.

A mesma situação ocorre com os racistas. Normalmente, as pessoas que combatem com veemência o racismo são racistas. Normalmente, aquelas pessoas, que discriminam os negros, têm na sua árvore genealógica a presença da afrodescendência.

Conta-se que, certa feita, caminhava um mestre com os seus discípulos, quando um deles retarda a caminhada. Interrogado do motivo de paralisação da marcha, ele responde: “Adiante tem um cachorro morto, em estado de decomposição”. Percebendo o discípulo com as mãos tapando o próprio nariz, o mestre segue o caminho normalmente e, ao olhar o animal morto, diz: “Que belos dentes tinha este cão”. O mestre viu a beleza que carregava em si e os discípulos viram a podridão que traziam no coração. São os túmulos caiados por fora, porém, cheios de podridão no íntimo.

Os homens e mulheres mais notáveis da humanidade não se incomodavam com os outros, miravam em si mesmos o que precisavam modificar. Chico Xavier afirmava: “Aos outros, o direito de se comportar como querem; a mim, o dever de ser cada dia melhor”.

Também projetamos Luz. Normalmente, as virtudes que admiramos nos outros e, por isso, resolvemos adotar, é porque nós temos essa virtude nós. Vamos conhecer a nós mesmos?

(*) Aloisio Silva é psicanalista. https://www.facebook.com/aloisio.silva?fref=nf

Dilma reeleita: que falem as urnas!!!

27 de outubro de 2014

José Caldas da Costa (jornalista há 40 anos)

Dilma Roussef reeleita presidente com pouco mais de 3 milhões de votos num colégio eleitoral de 144 milhões de eleitores, com a omissão de 40 milhões, entre abstenções, nulos e brancos. Ela com 54 milhões e o mineiro Aécio Neves com 51 milhões.

Além de escolher a permanência da Presidente, as urnas trouxeram alguns outros recados. Talvez o mais claro deles seja que a economia conduz a votação. E nem pensem que estou falando da Bolsa de Valores, que andou mal humorada quando Dilma aparecia na frente das pesquisas e bem humorada quando Aécio subia. Na hora do voto, o bolso fala mais do que a Bolsa.

Os mais pobres desse País ficaram com a candidata do PT porque temiam perder o que conquistaram. O salário mínimo subindo muito acima dos salários de outras classes impediu as classes D e E de verem a inflação sobre os preços. A classe média e a média alta ficou com Aécio porque não queria continuar perdendo. É quem mais paga com a alta de preços em vários setores, inclusive naquilo que mais gosta de consumir nos supermercados.

E os chamados intelectuais, principalmente aqueles ligados à academia pública, ficaram, majoritariamente, com Dilma porque estão gostando de ganhar para estudar. Ou seja, os pobres ganham a bolsa-familia; os acadêmicos o bolsa-exterior. E no meio a classe média sentindo que está pagando essa conta.

Além de indicar a continuidade do atual projeto de poder, as urnas mandaram um recado claríssimo a quem quiser entender: a periferia precisa ser ouvida; e a classe média está insatisfeita. No que isso vai dar, não sei, mas penso que dias difíceis estão por vir. O segundo mandato de Dilma Roussef será em céu de turbulência o tempo inteiro, com o escândalo da Petrobrás a lhe bater às portas.

Apesar da elegância diplomática de Aécio Neves ao final do pleito, é ilusão pensar que ele volta para o Senado apenas para digerir a derrota. Coisa nenhuma: ele sai muito fortalecido para puxar o bloco da oposição, com o reforço de águias como Aluísio Nunes Ferreira, José Serra, Álvaro Dias e Tasso Jereissati. O PSDB saiu ressuscitado do sarcófago.

A classe média que grita nas redes sociais está irritadíssima e disposta a fazer de tudo para continuar fazendo valer sua voz. Claro que num ambiente muito diferente de hoje em dia, mas foi essa mesma classe média que derrubou João Goulart com o apoio dos militares em 1964. Hoje, entretanto, não existe mais ambiente de guerra fria internacional a dividir o mundo em dois blocos ideológicos. Hoje, quem manda é o interesse econômico.

No Espírito Santo, Aécio Neves levou com margem estreita: 53,85% a 46,15%, coisa de 150 mil votos de vantagem. Dos maiores colégios eleitorais, Aécio Neves ganhou em Vitória, Vila Velha, Guarapari, Cachoeiro, Colatina e Linhares. Dilma levou a melhor em Cariacica, Serra, Viana e São Mateus.

O Brasil polarizou e, a rigor, quem garantiu a vitória de Dilma, ironicamente, foi o Estado de Pernambuco, onde ela havia perdido no primeiro turno. No segundo turno, parece que os eleitores de Marina Silva (leia-se, Eduardo Campos) ficaram com Dilma, porque ela ganhou com margem de 2 milhões de votos: 70,21% a 29,79%. Tivesse sido o resultado de Pernambuco inverso e as diferenças de votos de Minas Gerais e Rio de Janeiro, em favor de Dilma, não teriam sido suficientes para ela ganhar de Aécio Neves.

A rigor, Dilma ganhou no Norte-Nordeste do País, a eles se somando Minas Gerais e Rio de Janeiro. Já Aécio foi o Presidente escolhido do Centro Sul, excluídos, obviamente, Minas e Rio. Da divisa com Tocantins para baixo, incluindo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, só deu o senador mineiro, com destaque para São Paulo, onde a diferença foi estupenda: quase 7 milhões de votos. Aécio teve 15,2 milhões (64,31%) e Dilma somou 8,4 milhões (35,7%).

Ou seja, o Brasil mais pobre votou em Dilma, o Brasil mais rico votou em Aécio. Está ou não está dado o recado das urnas? Que os mais ricos entendam que os mais pobres, da periferia, do País e das grandes cidades, precisam ser incluídos no mesmo projeto de Nação, se é que queremos construir um País, verdadeiramente, próspero. Mas que o governo entenda que há uma classe média muito descontente, até porque esclarecida e não disposta a suportar arroubos de autoritarismo e de abuso de poder.

O Brasil despertou, sim. A democracia venceu. A despeito da clareza em relação a quem votou em quem, somos todos brasileiros. Não se pode condenar os mais pobres porque preferiram Dilma. Se for assim, vai-se ter que condenar os mais ricos por preferirem Aécio. É cada um defendendo seu bolso. Assim como a Bolsa de Valores reflete os interesses dos mais ricos, as urnas refletiram os interesses dos mais pobres. É o que eles podem fazer. E é bom que seja assim.

Desde a volta das eleições diretas em 1989, nunca se viu tamanho envolvimento das pessoas com a discussão política. Isso é muito bom. Agora, como diriam os petistas de outrora, “a luta continua”. Creio, sinceramente, que está nascendo uma sociedade que percebe não poder ficar se omitindo e deixar a vida lhe levar. 2018 já começou…

***

Quatro dias depois do primeiro turno, previ que o novo Presidente se elegeria com, aproximadamente, 1,5 milhão de votos de vantagem. Deu mais de 3 milhões.

O fato novo que aconteceu foi que Aécio Neves perdeu seu momento, quando manteve uma linha de ataques diretos a Dilma Roussef. O povo brasileiro se identifica com os “fracos”. Dilma quase chorou, o que condenou em Marina no primeiro turno, e reverteu a posição.

Se Aécio tivesse vindo com a proposta do último debate, na Globo, quando batia, mas apresentava proposições em seguida, deixando Dilma no canto do ringue, poderia ganhar a eleição. Mas Aécio errou na estratégia e pagou com a derrota “por pontos”. Dilma, quando não entrou na dele, parece que sabia, no jogo eleitoral, o que estava fazendo.

***

Eu não me surpreenderei se Dilma Roussef sofrer tentativas de impeachment. Com a ajuda do fogo amigo.

O nu falando do mal vestido

24 de outubro de 2014

Por José Caldas da Costa (40 anos de jornalismo)

O nu resolveu pegar a roupa suja do mal vestido e lavar publicamente, diante das câmaras de televisão, em horário gratuito para eles, mas pago com o meu, o seu, o nosso suado dinheiro. É assim que se pode resumir a campanha eleitoral, que está chegando ao seu final, para deixar um País muito mais dividido do que antes, nas casas, nas igrejas, nas escolas, nas ruas, campos, construções e nas redes sociais.

Nem de longe a campanha eleitoral para Presidente da República, pelo menos no segundo turno, se aproximou daquilo que se esperava de dois candidatos a comandar uma das maiores economias do mundo – já que é assim que nós, seres humanos, somos vistos na era contemporânea, uma célula de produção econômica. Talvez se agíssemos diferente enquanto povo eles parariam de olhar apenas o nosso CPF.

Pegaram um saco cheio de farinha, despejaram em cima da mesa e resolveram dizer que uma parte é boa e outra é ruim. A humanidade parece mesmo disposta a se dividir em banda boa e banda podre, sempre, embora sejamos todos oriundos do mesmo ambiente. Somente se conhece uma árvore pelos frutos que dá e, sinceramente, as duas árvores que estão diante de nós não nos dão frutos que cheguem a nos dar água na boca.

De repente, o Brasil descobriu um grupo usando a mesma armadilha de que foi vítima há 12 anos, de lama até o pescoço, mas querendo demonstrar que o barro é apenas uma ilusão de ótica, e que, na verdade, suas vestes são alvas como o algodão mais puro. Do outro lado, o outro grupo, que parecia condenado aos sarcófagos, renascer qual uma múmia saindo da sepultura para salvar o mundo.

A democracia permite isso. Mas podemos depurá-la pelo voto racional, que, infelizmente, ainda parece um sonho muito distante para nós.

O fato é que, na segunda-feira, vamos ter que nos assentar ao lado daquele colega que ofendemos nas redes sociais, somente porque pensava diferente, e trabalhar para defender o sustento de nossas famílias. Vamos ter que visitar aquele cliente que viu nossa mal educada postagem, o compartilhamento que fizemos de ofensas pela nossa rede social, e que não gostou nada daquilo, e vamos querer ser simpáticos para vender nosso produto.

O fato é que, no final do mês, quem vai pagar a conta é cada um de nós. Aliás, daqui a quatro anos estaremos pagando a conta das eleições deste ano ainda. E o Brasil será melhor ou pior, não porque Dilma ou Aécio o preside, mas porque cada um de nós fez sua parte.

Eu não anulo meu voto, e nem voto em branco. Posso decidir mal, mas decido. E cobro depois. E você?

Será o fim da era PT?

10 de outubro de 2014

Por José Caldas (jornalista há 40 anos)

PT, saudações. Sua era acabou. E isso faz bem para a democracia. A alternância de poder é saudável. Ou não terá terminado uma era, mas sim se iniciado outra? Sim, porque, ainda que o PT tenha interrompido seu projeto de três décadas de poder, estará reservado ao partido um importante papel no jogo democrático: o da oposição.

O dia 26 de outubro nos dirá. E dirá também se os 30% de eleitores desencantados, que, de alguma forma, não votaram no primeiro turno e abriram mão de contribuir para o resultado do pleito, diminuirá ou aumentará. Creio que diminuirá. O jogo ficou mais polarizado entre o vermelho dos petistas e o azul-amarelo da plumagem dos tucanos, que renascem das cinzas qual Fênix.

Há quem reclame disso ou daquilo na democracia, como se o sistema político acontecesse como que por um milagre. “Em nenhum país do mundo o método democrático pode perdurar sem tornar-se um costume” (Norberto Bobbio). Então, vamos acostumando-nos, até mesmo com a falta de programas de governo e a abundância de agressões pessoais nos debates eleitorais.

No período eleitoral, qualquer santo vira demônio na boca de quem se lhe opõe, e qualquer demônio vira santo nas mãos dos marqueteiros de plantão. Teatro dos horrores, mas parece fazer parte da regra do jogo. A questão é que, como bem diz o cronista político Alexandre Garcia, “voto é para ser dado com a razão”, mas na verdade o que ocorre é, justamente, o contrário: eleição é pura emoção. Ou é guerra, como defendem alguns, onde os fracos não sobrevivem.

Talvez advenha daí a queda de Marina Silva com sua frágil figura de seringueira. Em dado momento do primeiro turno, o eleitor parece ter começado a se identificar com os arroubos joviais do mineiro Aécio Neves e a abominar o discurso empolado de Dilma Roussef. O resultado foi que o improvável neto de Tancredo Neves chegou e chegou bem na corrida para o segundo turno.

A menos que ocorra com ele o mesmo fenômeno que ocorreu com Marina, o que não acredito por uma questão até de perfil, absolutamente, diferente dos dois, parece destinado a Aécio Neves o papel de interromper o ciclo de poder do PT no Brasil.

Vão sair, ainda, muitas bobagens nesse período eleitoral, como, por exemplo, a ideia de que um eventual governo do PSDB vai acabar com os benefícios sociais implantados nos 12 anos petistas. De novo Norberto Bobbio: “O que distingue um sistema democrático dos sistemas não democráticos é um conjunto de regras do jogo”.

E, sinceramente, numa dada medida, foi a tentação de uns poucos dentro do governo de quebrar essas regras que levou à iminente derrota do partido hoje na situação. Por outro lado, creio que a tucanagem está muito menos propensa a mudar determinadas regras, como acabar com os benefícios sociais. O que pode fazer é aperfeiçoá-los, como tão competente foi o PT de estender às classes D e E (a despeito dos grandes lucros dos banqueiros) os benefícios do controle do Plano Real, que domou o dragão da inflação.

É, no mínimo, rizível (para não dizer coisa pior) o movimento de alguns segmentos sociais para bombardear o sistema de apoio social do Estado àqueles que, economicamente, sempre estiveram à margem do desenvolvimento da Nação. Ensinar a pescar é bom, mas tem que manter o sujeito vivo para aprender. Talvez esteja havendo falhas no prolongamento do amparo social, mas inutiliza-lo, totalmente, é hipocrisia.

O jogo, porém, está em andamento e só acaba no fechar da última urna. Marina teve 22 milhões de votos, mas estão flertando com os dois candidatos do segundo turno 26 milhões de eleitores, além dos 11 milhões que votaram nulo ou em branco no primeiro turno. Os 27,6 milhões que não foram às urnas, provavelmente, repetirão o feito e quem vai decidir o destino dos brasileiros serão os 115 milhões que decidiram ir às sessões eleitorais.

Dilma colocou apenas pouco mais de 8,3 milhões de votos de vantagem sobre Aécio: 43,267 milhões da Presidenta contra 34,897 milhões do presidenciável mineiro. Para ganhar a eleição, Aécio vai ter que atrair dois em cada três dos votos que foram para Marina, Luciana Genro, Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Levy Fidelix, Zé Maria, Eymael, Mauro Iasi e Rui Pimenta. Ou seja, cerca de 17,300 milhões votos.

Pela tendência ideológica, parece já ter a certeza de pelo menos uns 1,5 milhão de votos dos candidatos mais à direita. Então, quem vai decidir a situação mesmo será o eleitorado de Marina Silva. Se Dilma atrair um de cada três votos da seringueira acreana, fica mais quatro anos no poder.

Ou seja, o projeto de poder do PT, cujo maior pecado é querer instrumentalizar, eleitoralmente, os programas sociais sustentados não pelos petistas, mas pelos impostos de todos os brasileiros, está nas mãos da Rede, que eles próprios, do PT, tanto trabalharam para não ser transformada em partido, empurrando Marina e seus seguidores para os braços do PSB de Eduardo Campos, tragicamente morto em acidente aéreo no início da campanha eleitoral.

***

Sinal de alerta no Espírito Santo: 1,631 milhão de capixabas não votaram no governador eleito, Paulo Hartung (PMDB), que teve 1,020 milhão de votos e se elegeu no primeiro turno. O atual governador, Renato Casagrande, somou 751,293 mil votos, ou seja, pouco mais do que os 742,027 mil que se abstiveram de ir às urnas ou votaram nulo ou em branco.

Foram 501.374 ausentes do pleito, 117 mil votos em branco e 123.653 eleitores anulando o voto para governador do Espírito Santo.

A despeito de a democracia pressupor que “quem cala consente”, esses números devem querer dizer alguma coisa. Ou não?

***

Rose de Freitas (PMDB) elegeu-se senadora. Este ano, renovamos 1/3 do Senado, que é o conselho da República. Venceu o mandato conquistado há oito anos por Renato Casagrande, mas concluído por Ana Rita (PT) nos quatro anos que Casagrande ocupou o Palácio Anchieta.

Daqui a quatro anos, a Casa será renovada em 2/3, portanto, votaremos em dois senadores. Estarão vencendo os mandatos dos senadores Magno Malta (PR) e Ricardo Ferraço (PMDB).

***

Uma sugestão: quem vai ter coragem de propor a proibição da publicação de pesquisas de intenção de votos? E não me venham dizer que isso é cerceamento do direito à informação. É, simplesmente, a defesa do direito de não ser manipulado na reta final. A proposta é: pesquisa de intenções de votos somente para consumo interno dos candidatos.

***

Outra sugestão: no dia em que a Justiça Eleitoral cobrar dos candidatos com candidaturas impugnadas os danos morais causados por eles ao manterem seus nomes nas urnas, essa lambança vai acabar.

Ou a Justiça Eleitoral torna-se mais ágil em julgar os recursos em todas as instâncias até o pleito, ou encontra uma forma de reduzir a farra de recursos desses candidatos ficha suja.

 (Publicado, simultaneamente, no site http://www.vixnoticias.com.br)

O ESPÍRITO SANTO PODE DECIDIR A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL EM 2014?

13 de setembro de 2014

Marina e CasãoPor José Caldas da Costa, jornalista há 40 anos.

O Espírito Santo pouco representa no cenário político nacional e tem, dos líderes, uma atenção proporcional ao que eles acham que significamos. Poucas vezes o Estado foi considerado. Numa dessas poucas, foi quando Vitor Buaiz se tornou, em 1994, o primeiro governador eleito pelo PT, depois de ter sido um dos primeiros prefeitos de Capital.

Mas nas eleições de 2014 o Espírito Santo poderá estar no centro das atenções, sim, porque poderá decidir a eleição de Presidente no segundo turno. Em favor de Marina Silva e ganhar importância, finalmente, no cenário do Poder Central da República. Ainda mais, se for chefiado pelo governador do mesmo partido.

Por uma razão simples: hoje, se se confirmassem os índices divulgados pelo Ibope, Marina ganharia Dilma no segundo turno por apenas 1% dos votos. Num cenário equivalente ao de 2010, isso representaria cerca de 1,046 milhão de votos.

As mesmas pesquisas apontam que, num eventual segundo turno, Marina deverá colocar 60% a 40% sobre Dilma no Espírito Santo. Projetando-se o cenário, teríamos Marina com 1,106 milhão de votos no Espírito Santo, contra 737,365 mil para Dilma. Ou seja, a votação capixaba para Marina seria, exatamente, a quantidade de votos suficientes para dar a ela a vitória sobre Dilma Roussef.

ELEIÇÕES EM NÚMEROS

Nas eleições presidenciais de 2010, no primeiro turno, Dilma Roussef (PT) obteve 47.651.434 votos (46,91%), contra 33.132.283 (32,61%) para José Serra (PSDB) e 19.636.359 (19,33%) para Marina Silva (PV).

No segundo turno, Dilma teve 55.752.092 (56,05%), enquanto Serra ficou com 43.710.422 (43,95%). Ou seja, parece que a votação de Marina migrou mais para José Serra do que para Dilma. Éramos 135.804.433 eleitores em todo o Brasil, dos quais 106,6 milhões votaram (78%), mas votos válidos foram 99,462 milhões. Ou seja, 26,76% deixaram de votar por algum motivo, seja por abstenção ou voto em branco ou nulo.

Nas eleições do próximo dia 5 de outubro, 142.822.046 eleitores brasileiros estão aptos a votar. O número representa um aumento de 5,17% em relação às eleições de 2010, quando havia 135.804.433 eleitores registrados na Justiça Eleitoral. Os dados são do  Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Se tivermos o mesmo índice de desperdício de votos, serão 38,219 milhões de eleitores omitindo-se na escolha do Presidente, que sairá da votação de 104,603 milhões de eleitores.

Vamos a uma informação importante: O Espírito Santo tem hoje  2.491.098 aptos a votar em 2014. Ou seja, o “pequeno” Estado do Espírito Santo tem o equivalente a 1,7% do eleitorado nacional.

Em 2010, Dilma teve, no primeiro turno, 717.417 (37,25%) votos capixabas, Serra levou 682.590 (35,44%) e Marina Silva obteve 505.734 (26,26%).  No segundo turno, porém, José Serra venceu Dilma no Espírito Santo. O tucano teve 955.423 (50,83%) votos, enquanto a petista ficou com 924.046 (49,17%).

E os capixabas ficamos com a nítida sensação de que Dilma tratou o Estado com explícita má vontade durante todo o seu Governo, talvez pelo deplorável sentimento de vingança. Praticamente, não pisou em terras capixabas – quando aqui desceu, quase não havia terras para ela pisar, pois o Estado se encontrava quase todo inundado, na maior enchente de sua história.

Marina ganhou Dilma no primeiro turno no Distrito Federal, com 611 mil votos (39,42%), contra 462 mil dados à petista (29,8%). O Espírito Santo deu a Marina a maior votação proporcional, depois do Distrito Federal, e do Rio de Janeiro, onde ela teve 2,293 milhões de votos (28,13%) e superou Serra.

No Espírito Santo, Marina teve 505.734 votos (24,28%), com um detalhe: teve mais votos que a petista nos grandes colégios eleitorais (Vitória e Vila Velha) e brilhou em Cariacica e Serra. E essa votação migrou, na maior parte, para Serra no segundo turno, dando-lhe a vitória em terras capixabas.

Hoje, mais do que nunca, essa força tem um nome: o Espírito Santo tem o maior índice, proporcional, de evangélicos do País. E há uma notória identificação desse segmento religioso com a candidatura Marina Silva.

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA

A democracia representativa nacional tem duas casas, compondo o Congresso Nacional: o Senado, representando os Estados, ou seja, as unidades federadas, e a Câmara dos Deputados, representando a população, proporcionalmente. O Senado é um “Conselho da República”, por isso, seus membros precisam ter no mínimo 35 anos de idade. Na Câmara, basta ter 18 anos de idade.

O senador é eleito para oito anos de mandato e, enquanto a Câmara dos Deputados pode se renovar em 100% a cada quatro anos, no Senado é diferente: a renovação se dá em duas etapas, em 2/3 e 1/3. Ou seja, é por isso que, por exemplo, em 2014, vamos dar apenas um voto para senador. Dos três senadores, todos os Estados poderão trocar um, ou manter o que está lá. Daqui a quatro anos, vamos votar em dois senadores, pois o Senado se renovará em 2/3.

No Espírito Santo, em 2014, vamos eleger apenas um senador para a vaga, que originalmente foi ocupada por Renato Casagrande. Entretanto, ao se eleger governador, Renato Casagrande foi substituído por sua suplente Ana Rita Esgário (PT), uma assistente social de boas posições políticas, mas sem densidade eleitoral – tanto que termina seu mandato este ano como mera candidata ao ostracismo. Daqui a quatro anos vamos eleger dois senadores: ou renovamos as mandatos de Ricardo Ferraço e Magno Malta ou mandamos outros no lugar deles.

Na Câmara, os 10 deputados do Espírito Santo têm pouco peso numa Casa com 513 membros. Acabam sendo meros despachantes de interesses de seus redutos eleitorais.

EM TEMPO: Hoje, 14 de setembro de 2014, comemoro 40 anos de jornalismo. Nessa data, em 1974, com 14 anos de idade, publiquei a minha primeira matéria num jornal de grande circulação, A Tribuna, como correspondente em Alegre – ES.